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Quem julga os demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas, examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito.
(Imitação de Cristo – Livro I – Capítulo 14)

 

 

Que não devemos julgar, nós sabemos bem, mas nem sempre agimos de acordo com a ordem de Jesus “Não Julgueis” (Lc 6, 37). Gosto muito da frase destacada acima. Quem julga os demais perde o trabalho… Nós não gostamos de perder o trabalho, especialmente em dias muito intensos em que a organização das tarefas ao longo do dia parece não poder comportar um trabalho perdido que exigirá de nós um tempo do qual não dispomos para ser refeito. Sabemos que devemos fazer bem cada coisa para evitar o “retrabalho”. Todos nós desejamos aprender a utilizar bem o tempo, sermos concentrados nas atividades e ser eficientes, pois é para Deus que ofertamos o fruto de todo nosso empenho. Ao falar sobre ‘perder o trabalho’, logo pensamos no tempo, mas também em uma certa frustração que sentimos ao ver que a tarefa está inconclusa porque o trabalho se perdeu. Além do tempo, quanta energia se esvai!…

Nossa caminhada espiritual também depende dos “trabalhos” que devemos abraçar para crescer na resposta à vontade de Deus e permanecer no amor. “Lidar consigo mesmo é trabalho de artesão, fio a fio e leva tempo…”. Cada um de nós sabe o quanto trabalha para acompanhar a graça de Deus e ser santo. Quando perdemos este trabalho, devemos ter a consciência de que esta perda é muito maior do que aquelas que comprometem nosso tempo e atrasam nossas tarefas.

 

Quem julga se coloca no lugar de Deus e se põe em outro plano, em outro nível, por isso se afasta do irmão a quem só poderá enxergar bem e de perto com as lentes da verdade
 

O trecho da Imitação afirma com clareza: quem julga os irmãos, perde o trabalho, gasta suas energias em vão. Dificilmente irá acertar, pois o amor próprio fere a retidão do juízo, e facilmente poderá pecar. Mas, se esta energia é gasta com o próprio julgamento, trabalharemos sempre com proveito e os nossos empenhos serão coroados de frutos. Como é desgastante manter o coração e a mente repleta de julgamentos! Quanta energia não só desperdiçada, mas mal empregada! O julgamento afasta os irmãos, pois um se coloca acima do outro.

Quem julga se coloca no lugar de Deus e se põe em outro plano, em outro nível, por isso se afasta do irmão a quem só poderá enxergar bem e de perto com as lentes da verdade. Se Deus fora sempre o único objetivo dos nossos desejos, poderemos enxergar os outros sob a luz de Seu olhar: se o irmão estiver errado, o perdoaremos, se estiver certo permaneceremos o amando com simplicidade e sem exaltação. Vale lembrar que também corremos o risco de errar julgando ser bom o que não é, quando, por exemplo, exaltamos desmedidamente uma pessoa partindo das nossas expectativas e impressões precipitadas e descoladas da verdade. Devemos sim ter um olhar otimista e acreditar no bem que há no coração das pessoas, mas sempre a partir do olhar de Deus. Qualquer julgamento, por menor que seja, é fruto de uma má aplicação das energias espirituais. E precisamos decidir não mais perder o trabalho.

Uma vez uma monja nos contou uma história sobre uma pessoa que dizia não temer o julgamento de Deus afirmando: “Eu não julgo ninguém, portanto, não serei julgada!”. Que paz de consciência! Jesus nos dá uma ordem que vem seguida de uma promessa: quem não julga não será julgado! (Lc 6, 37).  É muito grande o prêmio! Que o desejo de alcançá-lo possa orientar todo o nosso agir.

 

Ludmila Rocha Dorella
Consagrada da Comunidade CAtólica Árvores da Vida
Formadora Geral