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É sempre profundamente emocionante participar de uma ordenação presbiteral.  Por vezes há essas celebrações com vários jovens ou homens de idade mais madura. O céu se encontra com a terra e os que de coração participam levam ao fundo da alma o mistério desse homem chamado padre.
 
Alguém se sente chamado a continuar a missão do Senhor Jesus de maneira especial no anúncio de uma Palavra que salva, na colocação de gestos que suscitam a vida e no acompanhamento carinhoso das histórias daqueles que querem ser tocados pela força de  Cristo vivo e ressuscitado.
 
O padre é tirado do meio do povo.  Trata-se de alguém que antes de tudo quer ser de Cristo, que faz uma profunda experiência do Ressuscitado, todo feito de uma ladainha interminável de “eis-me aqui…  eis-me aqui”.
 
 A fala do sacerdote não provém dele. Ele vai aos poucos se identificando com o Mestre, perscrutando o coração dos irmãos e quando abre os lábios. Alguém fala por meio dele. O resultado será bom se o coração do ouvinte estiver desimpedido.  A fala do sacerdote não pode ser banal. É um jogador de sementes… a vida toda.
 
Lá está ele colocando os gestos de Cristo, os sinais de um mundo novo: uma água que ele recolhe da fonte de Coração de Jesus, um pão que fortalece as entranhas, um óleo que cura as feridas.  Cristo visita os seus na pessoa do padre que é verdadeiramente ministro  dos tesouros do amor de Deus. O padre não é empregado do “sagrado”, mas servo do amor de Deus que se manifestou na paixão, morte e ressurreição do Senhor.  É gerente de um mundo  novo que começou a manifestação  do Filho de Deus entre nós.
 
Quando o padre se recolhe  chegam-lhe à mente  os dramas que ouve, as alegrias que lhe são segredadas,  o cansaço que faz com que alguns cheguem ao esgotamento. Todas essas lembranças ele, esse misterioso e belíssimo ser humano que é o padre, leva ao Coração de Deus.  É feito Moisés que reza pelos seus.
 
Uma Clarissa escreveu linhas tocantes na intenção de um jovem sacerdote franciscano:
 
“No contexto atual da sociedade e da Ordem, não se pode ser irmão menor, sacerdote, religioso se não se cultiva profundamente o relacionamento com Deus de pessoa a pessoa, de filho para pai, de amigo para amigo, do “nada” ao “Todo”. A vocação é um mistério de enamoramento que quer conduzir a um encontro pessoal, que te envolve totalmente.  Nada de ilusões, tudo pode desmoronar, mesmo as convicções mais sólidas e hoje com maior facilidade.  A relação de pessoa a pessoa com Ele, autêntica e alimentada cada dia,  persiste e permanece firme, único ponto firme  no meio de mudanças de situações, de acontecimentos, pessoas e convicções.  É a salvação do sacerdote e do religioso.  Não se trata, porém, de um relacionamento qualquer. Por isso,  não é tão fácil estabelece-lo.  Requer:  conhecimento de si mesmo (humildade), amor a Ele (“devoção” à sua pessoa), compreender tanto a  Ele quanto a seus planos, “aceitá-lo” como é, com seu desígnio a nosso respeito, seu sonho de amor a nosso respeito”  (Chiara Augusta Lainati, OSC, “Solo una cosa es necessária”, in Selecciones de Franciscanismo  124  (2013), p. 131).
 

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM