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As Santas Casas de Misericórdia foram os primeiros hospitais erguidos no país por obra da colonização portuguesa e a elas credita-se forte influência no espírito de solidariedade que moldou o povo brasileiro. Isto porque, em quase todos os registros de nossa formação social, a instituição é citada como receptora de crianças abandonadas na “roda dos enjeitados”.

A roda era um nicho giratório com uma portinhola que se abria de ambos os lados do muro do hospital. Do lado de fora, as mães deixavam os filhos, sem precisar se identificar e, assim, fugiam da responsabilidade de criar uma criança, qualquer que fosse o motivo do abandono. Do lado de dentro, as religiosas das Santas Casas acolhiam os recém-nascidos e todos os demais problemas decorrentes dessa “bondade”.

De certa maneira, tal prática pode ser considerada marco inicial da evolução do Terceiro Setor no Brasil e, também, do desenvolvimento do processo de adoção. Segundo relatos, as “rodas” foram utilizadas para que se evitassem os abortos e crimes contra as crianças. E, por mais que essa história nos soe distante, ou assemelhe-se a roteiro de ficção, ela subsistiu até meados do século passado.

Um direito da criança

Toda criança tem direito a uma família. A compreensão desse princípio é relativamente nova em nossa sociedade. Até pouco tempo atrás prevalecia a vontade de casais impossibilitados de ter filhos e, portanto, favorecidos no processo de adoção. A adoção apenas vista pelos motivos e ótica dos adultos sempre incluiu um rosário de preconceitos. Questões materiais, como situação financeira dos candidatos a adotar e características físicas das crianças a serem adotadas, davam o tom da maioria dos casos.

 

Adotar é um ato de amor que deve ser entendido com o coração e a razão. Não deve ser encarado como caridade, nem como remédio para a solidão

De todo, isso não mudou. Ainda há preferência por crianças de pouca idade, brancas e do sexo feminino. Mas, sem dúvida, houve avanços muito positivos com a instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente; a ampliação dos Conselhos Tutelares e de Direito; e o crescente número de organizações não governamentais voltadas para o amparo às crianças abandonadas e para a orientação psicológica às famílias interessadas em adoção.

É natural que as famílias ansiosas por adotar uma criança coloquem a emoção em primeiro plano e alimentem expectativas de resolver tudo rapidamente. É preciso considerar, no entanto, a complexidade da adoção, pois ela envolve etapas muito importantes para a boa convivência dos membros de uma família no presente e no futuro.

A vontade de resgatar uma criança de uma provável trajetória de dificuldades e de oferecer afeto incondicional por toda uma vida precisa ser compatibilizada com exigências legais e, principalmente, respeitar os sentimentos da própria criança.

Adotar é para toda a vida

Por mais que um processo de adoção demore e exija que os candidatos passem por sucessivas etapas e provas de avaliação, o respeito aos trâmites legais é fundamental. Além disso, é necessário haver um tempo de convivência entre pais candidatos e possíveis filhos adotivos, em especial no caso de crianças maiores. Aquelas com mais de 12 anos devem, obrigatoriamente, dar consentimento para serem adotadas.

Importante também é que as pessoas interessadas pela adoção se preparem para isso da melhor forma possível, não só procurando assistência jurídica, mas também orientação psicológica e informação. Para isso, há muita literatura especializada e entidades sérias, prontas para auxiliar os pretendentes à adoção.

Adotar é um ato de amor que deve ser entendido com o coração e a razão. Não deve ser encarado como caridade, nem como remédio para a solidão ou para a impossibilidade de gerar filhos biológicos. Mas, acredito, deve resultar de uma vontade genuína de conviver e compartilhar afeto.

Lucila Cano
Formada em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP (SP)
Redatora publicitária  e assessora de imprensa.