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Outro dia, pela manhã, enquanto trabalhava, ecoavam os alertas sonoros do celular de sms, Whatsapp e e-mails recebidos. Tive então a ideia de fazer um experimento: o que aconteceria se atendesse prontamente a cada um desses chamados?

Comecei pelas mensagens. Bem, essas estão caindo em desuso, pelo que não foi muito demorado. Já o whatsapp… Ufa! Quem me colocou em tantos grupos? Mas vamos lá. Li uma a uma as mensagens pendentes, o que cada um comentou e, timidamente, fiz um ou outro breve comentário. Depois os e-mails. Bem, quanto a esses, vou desconsiderar os atrasados, pois, do contrário, não faria outra coisa a manhã toda. Dediquei então a ler e a responder apenas os recebidos hoje.

 A conclusão foi alarmante: em uma hora somente foi possível dedicar quinze minutos ao trabalho e, mesmo assim, devido às constantes interrupções, com uma produtividade medíocre.

 

Só conseguimos fazer uma coisa de cada vez. E então, como lidamos com um mundo que nos proporciona infinitas possibilidades de
comunicação e relacionamento com essa limitação humana elementar?

Por uns instantes pensei que isso seria um problema exclusivo de quem exerce atividades intelectuais. Mas não! Basta observar um pouco e veremos mesmo entre trabalhadores que exercem atividades manuais, como também se dedicam com assustadora frequência a deslizar rapidamente o polegar sobre a tela de um smartphone. Nem quero considerar, por ora, o trabalho insano que deve desenvolver o professor em sala de aula para manter a atenção dos alunos…

Meditando em como esses equipamentos eletrônicos nos mantém conectados com tudo e com todos, vêm-me à memória, com certa dose de saudosismo, o que aprendíamos nas primeiras aulas de catecismo: “Quem é Deus? Resp.: Deus é um ser onipotente, onipresente e onisciente…”.

Penso que, de certo modo, as modernas tecnologias nos sugerem a possibilidade de obter esses mesmos dons da onipotência, onipresença e onisciência. Com efeito, podemos tudo, pois, com um simples tocar na tela do equipamento temos o mundo ao nosso alcance e ao nosso dispor. Também se nos dá a possibilidade de estar em qualquer lugar do mundo, assim como de nos comunicarmos a um só tempo com pessoas que se encontram em qualquer lugar do planeta. E, mesmo que não saibamos tudo, com uma ferramenta de pesquisa podemos descobrir qualquer coisa, ainda que superficialmente, em poucos segundos.

Acontece que, apesar da sensação de plenitude que esses equipamentos nos proporcionam, temos inexoravelmente de nos render a uma realidade inquestionável: só conseguimos fazer uma coisa de cada vez. E então, como lidamos com um mundo que nos proporciona infinitas possibilidades de comunicação e relacionamento com essa limitação humana elementar?

A virtude da ordem sempre foi importante, ainda que um tanto esquecida. Nos dias atuais, porém, tê-la presente e buscar aprimorá-la é questão de sobrevivência. Ao contrário do que parece, porém, ela não é apenas uma ferramenta destinada a programar melhor as atividades do nosso dia, ou mesmo a organizar melhor os nossos objetos, mesa de trabalho, guarda-roupas, ou ainda a ter uma agenda de compromissos revisada periodicamente. Esses aspectos são relevantes, porque nos fazem aproveitar melhor o tempo, mas, em si, não são suficientes.

A ordem há de ser, antes de tudo, uma escolha interior. Algo que brota da resposta às seguintes indagações: quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Assim, se enfrentamos com valentia esses questionamentos, veremos que temos uma missão neste mundo e um destino eterno. Sob essa perspectiva é que devemos escolher – porque somos livres – o que convém e o que não convém a cada minuto das nossas vidas.

Poderemos, por exemplo, gastar nosso tempo nos distraindo com bobagens que nos agradam no Facebook, ou, talvez utilizando da mesma ferramenta, procurando alentar, estimular, compreender e acolhendo algum amigo, parente, conhecido que passa por uma dificuldade. Tudo depende, como sempre, do sentido que estamos dando a cada minuto das nossas vidas.

E você, cara leitora, caro leitor, por onde anda “navegando” nesse mundo real e virtual? Ao respondermos a essa pergunta, convém não esquecer que naquilo em que empregamos o nosso tempo é, frequentemente, onde está o nosso coração.

Fábio Henrique Prado de Toledo
Juiz de Direito e Especialista em Matrimônio e Educação Familiar
pela Universitat Internacional de Catalunya – UIC
E-mail: fabiohptoledo@gmail.com