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O simbolismo da Aliança na Leitura bíblica (9)

A experiência de viver a “Aliança” proposta por Deus na Escritura

 

 
Os cristãos que fazem a experiência de Deus em
Jesus podem ajudar outras pessoas a fazerem a
experiência salvífica de Deus

 

Percorrendo o caminho bíblico da Aliança de Deus com seu povo e, neste percurso, aprendendo com as experiências daquele povo que, a cada instante, sente a necessidade de se aproximar de Deus, de buscar o entendimento dos fatos ocorridos no cotidiano de suas vidas, percebe-se que a experiência cristã de Deus acontece de forma inseparável das fontes da revelação bíblica, incluindo as origens da tradição cristã.

A Palavra de Deus na Escritura surge como fruto da experiência religiosa de um povo e que, em sua estrutura atual, apresenta-se como recordação dessa experiência e oferece-se como uma palavra válida para todos os tempos e para todos os homens. Nesse sentido, podemos dizer que a experiência cristã é, portanto, constituída pela ação de Deus vivida na experiência humana. O encontro com Deus está sempre condicionado pela atenção, pela sensibilidade, pelo contexto e pela historicidade do homem.

Vimos a “Aliança” como ato gratuito e incondicional de amor de Deus. Desde a criação ele se preocupa com o ser humano e toma a iniciativa de fazer a Aliança. Pelas narrativas bíblicas vemos que ele renova com o povo a sua Aliança e promete vida, prosperidade, fecundidade. As Leis oferecidas são para nortear a caminhada do povo. Assim também é com Jesus.

 

O anúncio da fé cristã produz diálogo com a realidade e as
questões que cada pessoa traz em si,
um anúncio pautado pelo conhecimento afetivo e efetivo daqueles com quem se dialoga

Podemos ver como o Segundo Testamento retoma toda a Escritura e a relê à luz da experiência de fé em Cristo. Nela, Jesus é o Messias, o Salvador e Redentor, prometido por Deus. E pelo seu sangue, como outrora fora pelo sangue do cordeiro, a nova e eterna aliança é concluída. A excelência desta nova aliança fundada sobre as melhores promessas pessoais, as de Cristo, nos deixa transparente o modelo de vida de Jesus Cristo a seguir, o que nos impulsiona para também viver uma vida doada de adesão a Deus. A oferta da vida de Jesus leva à realização plena do projeto de Deus e por isso, somos convocados a dar a continuidade desse projeto. Com Jesus, uma vida sempre em renovação. Por ele, todas as nações do universo encontram a vida de Deus e formam uma unidade com ele.

Os cristãos que fazem a experiência de Deus em Jesus podem ajudar outras pessoas a fazerem a experiência salvífica de Deus. A ação de Deus vivida na experiência humana torna-se testemunha para o mundo. Quem se abre a essa experiência, abre-se à revelação, faz-se testemunha, por meio de atitudes de comunhão, de gratuidade, de criatividade e misericórdia, frutos do amor trinitário.

Experimentar Deus trinitário é ser comunhão, é criar comunhão e participar da vida em comunidade.  Daí pode-se afirmar que crer em Deus não é uma relação centrada em si mesmo, mas é um sair de si como Deus mesmo nos mostrou, enviando seu próprio filho ao mundo. É um sair de si realizando a Aliança, na certeza de que ela nos ensina a renovar e reconhecer a gratuidade do amor e da misericórdia de Deus, com cada pessoa. Aquele que experimenta a fé cristã abrindo-se à dinâmica da vida relacional com a Trindade, vive um processo de encontro consigo, com os outros, com o mundo e com Deus. Um processo mistagógico, ou seja, um processo de encontros onde o anúncio da fé cristã produz diálogo com a realidade e as questões que cada pessoa traz em si, um anúncio pautado pelo conhecimento afetivo e efetivo daqueles com quem se dialoga.

Neuza Silveira de Souza
coordenadora da Comissão Arquidiocesana de Catequese de Belo Horizonte