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O simbolismo da Aliança na Leitura bíblica (7)

A Aliança no Novo Testamento

 

Pensar o Novo testamento nos leva a recordar que os Evangelhos foram inspirados pela necessidade de registrar, por escrito, algo da vida e dos ensinamentos de Jesus. Dentre as várias passagens, se olharmos para a narrativa dos discípulos de Emaús, no Evangelho de Lucas, observamos que Jesus se apresenta no meio dos Apóstolos, mostra suas feridas, come um pedaço de peixe que lhe é oferecido e explica: “era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então, “abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras”, dizendo-lhes: “Assim está escrito: o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia” (Lc 24,36-47).

 

O evento Jesus Cristo

A narrativa dos eventos confusos que levam à morte de Jesus; o desaparecimento do corpo; o fornecimento de informações, que é clara, mas não compreendida, a iluminação de tudo o que aconteceu, ou seja, os elementos da morte, o túmulo vazio, as Escrituras, e a presença viva, tomados conjuntamente, eles têm a marca da verdade absoluta: os eventos que dão significado à Escritura, e a Escritura que, por sua vez, confere dignidade aos eventos. Esse argumento poderia ser resumido assim: Deus, em tempos passados, falou-nos por meio de sombras e enigmas, mas o sacrifício de Jesus, seu Filho, agora tornou seu significado claro. Os homens da Aliança antiga eram como nós, peregrinos, em busca de seus objetivos e lugar de descanso final, não o alcançando. Nós, homens da Nova e Eterna Aliança, por outro lado, conhecemos nosso objetivo e estamos em posição de alcançá-lo.

Quem nos instrui assim é o Segundo Testamento que, em continuidade ao Primeiro, vê em Jesus e na comunidade Cristã o povo de Deus renovado, no meio do qual Deus mora, pois nós somos o Templo de Deus. Encontramos essa afirmação em Paulo apóstolo que, relendo a Escritura, retoma o livro do Levítico no capítulo 26, 11-13, o livro do Êxodo no capítulo 6,7 e, ainda, Ezequiel 36,28 para falar dessa presença, fazendo uso da fórmula da aliança:

“Em meio a eles habitarei e caminharei, serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Portanto, saí do meio de tal gente e afastai-vos, diz o Senhor. Não toqueis o que seja impuro, e eu vos acolherei. Serei para vós pai, e sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso” (2Cor 6,16-18).

Nova aliança no sangue de Jesus

Jesus selou a Aliança entre Deus e os seres humanos, por meio do seu sangue, na cruz. Na descrição do evangelista Lucas, Jesus selou esta aliança, a partir da ceia pascal, nestes termos:

“Quando chegou à hora, ele se pôs à mesa com os seus apóstolos e disse-lhes: desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; pois, eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus”. Então tomando uma taça, deu graças e disse: “Tomai isto e reparti entre vós; pois, eu vos digo que doravante não beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. E tomou um pão, deu graças, partiu e deu-o a eles, dizendo: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória. E, depois de comer, fez o mesmo com a taça, dizendo: “essa taça é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,14-20).

No Evangelho de Lucas, esta é a páscoa de despedida de Jesus, ou seja, a última páscoa realizada nos moldes judaicos. A páscoa cristã, retomando o rito do pão e do cálice, dá-lhes um sentido novo, pois, Jesus entregou seu corpo e seu sangue, ou seja, entregou-lhes sua vida. Nesse sentido, quando participamos no pão e no vinho, nos tornamos participantes da sua vida.

Com o sacrifício do seu sangue, ou seja, da sua vida, Jesus sela a ‘Nova Aliança’. Ele é o elo de ligação entre a antiga e nova aliança e, através do envio do seu Espírito, vem fazer morada em nós e nos mantêm ligados á aliança com Deus. Essa  Aliança é pura graça e dom de Deus, que se doa a cada ser humano, e que sempre contará com uma resposta pessoal e comunitária, que seja livre, responsável, gratuita e consciente: Tomar-vos-ei por meu povo e serei o vosso Deus (Ex 6,7).

Neuza Silveira de Souza, coordenadora da Comissão Arquidiocesana de Catequese de Belo Horizonte.