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O sentido da vida na pós-modernidade

Ao falar de sentido da vida buscamos o que há de radical e na existência. E o cristão encontra em Deus a primeira e última intelecção: alfa e ômega

Um pouquinho de gramática. O plural normalmente indica que a realidade no singular se multiplica. Tenho um pão, tenho dois pães. Dobrei. Pus no plural.

 

O termo sentido, no entanto, como vários outros fazem exceção. Às vezes, acontece que o plural entra em contradição com o singular. Platão pôs o Bem no centro da ética do Ocidente. E hoje vemos tantos bens destruírem o Bem. As pessoas em busca de bens esquecem o Bem para o qual foram criadas.

 

O mesmo vale para Deus. Se o termo vai para o plural, perverte-se em deuses, ídolos. Não suporta o plural. A palavra amor não casa bem com amores. O primeiro guarda a grandeza do término, enquanto os amores frequentemente se perdem em frivolidades. Fé não suporta plural. Transforma-se em crenças e dissolve-se em inúmeras expressões até contraditórias.

 

E sentido, será que os sentidos conflitam com ele? Sim e não. No singular exala grandeza, pretensão de orientar toda a vida. Guarda profunda unidade. Ao falar de sentido da vida, no singular, concentramos em buscar o que há de radical e determinante em última instância na existência. E para o cristão ele encontra em Deus a primeira e última intelecção. Alfa e ômega. 

 

O termo Deus permite diversas interpretações. Conjuga dois movimentos bem diferentes que se encontram. Todo ser humano, assim nos ensina a Revelação cristã, foi criado por Deus do nada. Prestemos atenção. Do nada, quer dizer que antes não existia nenhuma realidade que nos constituísse, senão a vontade livre de Deus de criar-nos.  

 

Dificilmente se consegue impor a alguém um sentido e imagem de Deus. Tudo isso passa pelo crivo da individualidade, da consciência pessoal. Bendita descoberta

A revelação vai mais longe. Ensina-nos que Ele nos criou para uma comunhão de amizade com ele. Esta é a profunda constituição do nosso ser. Somos existencialmente feitos por e para Deus. Mais que ele está em nós, ele nos faz existir. Algo radical. Jogados na história, verbalizamos, tornamos palavras para nós e para os outros essa experiência. Colhemos da cultura que nos cerca símbolos, expressões, explicitações, termos, conceitos para exprimi-la. Chamamo-la de Deus. E aí entram muitos fatores a influenciar ambiguamente, ora traduzindo bem a experiência fundante de Deus, sentido da vida, ora maculando-a com falsas imagens.

 

E na pós-modernidade, o que se passa? Na brevidade da reflexão, selecionamos um aspecto positivo e outro negativo. A pós-modernidade, ao trabalhar a realidade de Deus, como sentido da vida, não permite que ela nos massacre e domine. Valoriza a autonomia, a liberdade, a capacidade de resposta do ser humano. Tal valorização da subjetividade, nascida na modernidade, reforça-se ainda mais. Dificilmente se consegue impor a alguém um sentido e imagem de Deus. Tudo isso passa pelo crivo da individualidade, da consciência pessoal. Bendita descoberta que diminui as pretensões dos absolutismos históricos.

 

Entretanto, ela fragmenta as realidades íntegras. E o sentido da vida vai para o plural. Transformam-se em sentidos e por isso caem sob a tirania dos cinco sentidos. Então cabe retomar o singular e assim ir reinterpretando para dentro dele o plural, a fim de não sofrer dolorosa fragmentação.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)