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O que deve e o que não pode

 

Certamente, não há humanidade. Tem sempre um grupo pequeno (ou, neste caso, muito pequeno) que vê diferente. Mas existe certamente consenso. A esmagadora maioria já concorda. Até onde a vista alcança. Até o limite do audível. No mundo real ou virtual. Em toda parte. Já faz muito tempo, alias. Todos concordam que a vida piorou muito nos últimos anos.

As razoes são muitas, variadas, diferentes. Inflação, corrupção, incompetência, qualidade de vida, desemprego, segurança… Enfim, seria possível encher paginas e (provavelmente a paciência do leitor) com o rosário de reclamações (ou constatações) que levam a conclusão coletiva de que a vida esta ruim para todos.

Não chega a ser um diagnóstico. Isso exigiria determinar as causas e, em etapa seguinte, fazer o prognostico. E provavelmente, ai sim, não haveria consenso. Não surpreende. Principalmente diante da quantidade de saídas e propostas simplistas, quase primitivas que circulam por ai.

Talvez seja a ausência de surpresas a mais clara denúncia da baixa qualidade dos resultados dos nossos esforços coletivos em construir um país melhor. Enfim, não é a existência dos comportamentos indesejáveis que surpreende. É o fato de se repetirem. De serem generalizados. De serem resilientes ao extremo.

É tudo tão espalhado, generalizado, resistente ao combate, que já dá para chamar de epidemia (ou, talvez mesmo de pandemia). Basta ver que são os mesmo crimes. Praticados pelos mesmos motivos. Envolvendo personagens comuns. E em um enredo cada vez mais abrangente, onde, já no meio de história desinteressante, sobram culpados, faltam heróis.

Claro que é importante cumprir as leis ao fazer justiça. Esse é outro consenso. Mas talvez o mais importante (ou no mínimo tão importante quanto) fosse descobrir o que todos estamos coletivamente fazendo de errado para colher esse resultado tenebroso.

O triste desfile diário de más notícias é também culpa e responsabilidade de cada um. É falha coletiva aproveitada por gente que, sendo incapaz de tudo, é capaz de qualquer coisa. E impedir que a história seja escrita pela tinta do cinismo é obrigação de cada um. Sem precisar de consenso sobre o que se deve fazer, mas necessariamente concordando sobre o que não pode ser feito.

 

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)