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O “por quꔝ de um espaço sagrado

Cristo é o Templo: Santo e Edificado pelo próprio Deus
 

Diversos empenhos têm sido orientados nos últimos anos por nosso Arcebispo com o propósito de edificar a Catedral Cristo-Rei. Embora o projeto vá além do Espaço Sagrado, pois se trata de um amplo complexo de serviços que nela se efetivarão, em prol da evangelização, não podemos negar que o lugar do culto ao Mistério Pascal de Cristo é o coração deste empreendimento. Queremos, então, em alguns artigos, conversar a respeito da importância e significado do espaço sagrado, em virtude de nos animar com os propósitos de nossa Arquidiocese.

É bem verdade que, para os cristãos e cristãs de ontem e de hoje, o único e verdadeiro Templo é Cristo, Seu Corpo. Tanto a Sagrada Escritura quanto as orações litúrgicas insistem neste fato. João, em seu Evangelho nos lembra, por ocasião da purificação do Templo de Jerusalém, quando Jesus fora desafiado por seus opositores: “Ele, porém, falava do Templo de seu corpo”; o prefácio da Dedicação da Igreja e altar reza: “Nesta casa se anuncia o mistério do Templo verdadeiro e se prefigura a imagem da celeste Jerusalém: do Corpo de vosso Filho (…) fizestes o templo a Vós consagrado (…)”. Escritura, liturgia e Tradição, portanto, testemunham a Cristo Jesus, nascido de mulher quando chegou a plenitude dos tempos para que nos tornássemos filhos e filhas n’Ele, como Habitação de Deus, lugar de sua morada e revelação de sua glória.

O teólogo e artista plástico Pe. M. Rupinik, consultor para a iconografia do Espaço Sagrado da Catedral Cristo Rei, dizia-nos que, curiosamente, os termos gregos aplicados ao Templo de Jerusalém e a Jesus de Nazaré eram distintos. João, no trecho do Evangelho que mencionamos acima utiliza a palavra grega “hieros” para designar o Templo de Jerusalém; quando atribui ao corpo de Jesus o significado de “templo”, escolhe o termo “naós”.   Apesar de serem sinônimos, existem algumas distinções interessantes entre os dois termos.

 

A oração de bênção da pedra fundamental de uma nova igreja ensina que Cristo “foi anunciado, em figura, pelo Profeta como a pedra caída do monte sem intervenção de mão humana, e o Apóstolo chamou-Lhe o fundamento que ninguém poderá substituir.”

A primeira palavra, “hieros” significa literalmente santuário, lugar sagrado e diz respeito à área do templo como lugar de culto. “Naon”, por sua vez, evoca um elemento interessante que mais tarde aparecerá aplicado à Igreja nas cartas de Pedro: à própria edificação do templo. A palavra “naon”, portanto, tem a ver com o “material” de que o templo é feito; poderíamos dizer: a “carne” do templo. Muito sugestivo, inclusive, que o Ritual de Dedicação da Igreja e altar proponha como antífona para acompanhar o canto (Salmo) durante o qual se ungem as paredes da Igreja e o altar estes versos: “O templo de Deus é santo, é construção de Deus, é edificação de Deus.”

Neste “Templo de Deus”, o Filho figura como pedra angular. A oração de bênção da pedra fundamental de uma nova igreja ensina que Cristo “foi anunciado, em figura, pelo Profeta como a pedra caída do monte sem intervenção de mão humana, e o Apóstolo chamou-Lhe o fundamento que ninguém poderá substituir.” Este texto eucológico nos adverte sobre a edificação da igreja de pedra em sua conexão com a experiência teologal que ali se manifestará: a figura de Jesus, no que se refere à sua natureza – concebido pelo Espírito, Verbo feito carne – e com sua missão –  Novo Adão, que nos salva por sua humanidade redentora; primogênito dentre os mortos.  Mais uma vez, brilha a compreensão de M. Rupnik: a experiência teológica que o espaço sagrado fará emergir é que “a Palavra se fez espaço”. Fez-se “lugar”, morada e manifestação na pessoa de Jesus, em seu corpo, meio pelo qual a salvação nos alcança; e “fundamento” do novo ser humano, pois o Filho por seu ministério e mistério nos põe em contato com nossa origem que é a própria Palavra Divina, fazendo ruir o velho ser humano, ressuscitando-nos para uma nova vida.

 

Pe. Márcio Pimentel