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O percurso existencial no sistema atual


 

Como as pessoas se sentem existencialmente no atual sistema e momento cultural? Por aí conseguimos captar-lhe traços importantes que escapam das análises dos economistas e frequentemente dos sociólogos. Nem se trata diretamente de sentimentos psicológicos. Está em jogo algo mais profundo: o próprio existir humano sobre o qual a filosofia e a teologia costumam refletir.

Corta a sociedade atual a linha divisória do bem-estar material. De um lado, minoria agraciada com as ofertas consumistas em contínuo crescimento qualitativo e quantitativo. Reina, na linguagem do papa Francisco, em seu último documento “A Alegria do Evangelho”, o senhorio do dinheiro. Vive-se sob o império do capital financeiro que reina soberano, a oferecer lícita e corruptamente jogos mirabolantes com o capital. Faz tempo que a ética entrou em recesso no mundo do dinheiro.

O percurso existencial vai na linha progressiva da substituição do ser pelo ter, recordando reflexões do filósofo existencialista francês Gabriel Marcel – “Être et Avoir” – e de Paulo VI na Carta Encíclica “Populorum progressio”.

Os dois corifeus da defesa do ser sobre o ter não puderam conhecer o novo deslocamento pós-moderno que faz sobressair sobre o ter o aparecer.
 

Na noite dos dois extremos, a fé cristã oferece outra
estrada a trilhar: a esperança. Esperar é crer no amor

Depois do primeiro passo do abundante ter vem a exibição do mostrar, do culto à exterioridade e à aparência. Aí o grupo privilegiado distingue muito bem os sinais reais e os requintes sofisticados do mundo da alta riqueza: grifes, hotéis, clubes, cruzeiros e outras demonstrações de status. Aqueles que não passeiam por esse mundo facilmente são identificados pelo kitsch ou pela falsa moeda da exterioridade.

Segue-se a tal sofreguidão da felicidade rápida, fútil e superficial. Não raro tudo desaba e a falida paz interior conduz à busca substitutiva da droga. De vez em quando, o noticiário nos surpreende com mortes por overdose. Triste fim de um itinerário que nunca tocou a intimidade maior da pessoa. A sabedoria dos antigos já nos deixara a lição: “Vaidade das vaidades – diz o Eclesiastes –, neblina fugaz, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2)!

No lado oposto, não é menos trágica a caminhada. W. Benjamim traçou uma sucessão de passos vividos pelos excluídos do sistema. Desespero, raiva, cólera e indignação. Madri surpreendeu-nos na presente crise econômica com “los indignados”. No mês de junho deste ano, multidões ocuparam as ruas do Brasil explodindo de cólera contra um regime eivado de corrupção, de segregação.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos vê o sistema fechado pelos interesses dominantes de tal modo que só sobrou a rua como espaço de liberdade e de protestos.

Na noite dos dois extremos, a fé cristã oferece outra estrada a trilhar: a esperança. Esperar é crer no amor. Mas em que amor? Precisamente do outro que conosco convive no momento em que ele descobre habitar em si a Transcendência. Ela mantém-nos inquietos, diria santo Agostinho, até que a encontremos no concreto da existência. E isso significa a experiência mais simples do mundo: cada saída de si em direção a um outro necessitado de nossa presença faz-nos mais felizes que todas as exterioridades das classes superiores e salpica de luz a noite dos que estão à beira do desespero.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)