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Natal. Mesmo que quiséssemos, por não acreditar ou não professar alguma fé, é impossível não o associarmos à Pessoa que dá origem a essa festa. Ainda que, por causa de um ateísmo absoluto – se é que podemos afirmar isto como possível – nunca se fizesse referência ao acontecimento que está diretamente associado a esta comemoração, jamais haveria possibilidade de negar a existência histórica de quem, em primeiríssimo lugar, tem a ver com a data.

Faço essa afirmação não com a intenção da implacável defesa de uma verdade que aceito e que quero, nestas poucas palavras, forçar para que seja acreditada pelos que nela não creem. Num primeiro momento, desejo, apenas, considerar uma constatação, pois, de fato, por mais atéia que seja a pessoa, não tem como não admitir que o Natal está vinculado intimamente ao nascimento de Jesus.

Penso, porém, que a ocasião tão festejada, ao menos aparentemente, deve ser, em mais esta oportunidade, uma incisiva provocação para nos depararmos num saudável questionamento em relação às nossas “mesmices” de sempre, como costumamos usar esta palavra para nos referir a uma rotina de repetições que podem até se tornar enfadonhas, mesmo que, supostamente, soem como tão bonitas.

O que é “novo” do Natal para mim, quando, novamente, depois de um ano de meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos que, parece, passaram mais rápido que no ano anterior, o último mês chegou com todo um aparato de impressionante apelo comercial e atrativos tecnológicos de extraordinária criatividade e inteligência humanas?

 

É esta experiência
que significa alegria
de uma fagulha de vida nova oferecida a alguém, que faz acontecer o “novo”
do Natal, pois o divino Recém-nascido re-nasce no humano

Quando faço essa pergunta, prezado(a) leitor(a), não me omito de ser destinatário dela, desejando, aliás, ser o primeiro a me incomodar; já usei a expressão “para mim”, tendo em vista a minha pessoa, o meu jeito de ser, a minha função…

Fico me perguntando: para que gastar tanto dinheiro numa inumerável opção de presentes ou mesmo tantas palavras bonitas em belos cartões, se sabemos que tudo isso tem tão pouca duração? Não estaríamos, de certo modo, agindo contraditoriamente, se na oferta da transitória beleza das coisas e palavras, desejássemos, com forte sentimento, algo que queremos que convença a pessoa do quanto a estimamos, e isto não só por um dia ou alguns dias?

Convictos, pois, de que “tudo passa”, como comumente afirmamos, também quando pensamos em nossa própria vida breve aqui neste mundo, mesmo se for o caso de chegarmos à idade centenária ou até passar um pouco, o que deve, então, “permanecer”?

Crentes ou descrentes, haveremos de admitir, mais cedo ou mais tarde, que o “novo” é o “mesmo”, mas isso não tem nada a ver com “mesmice”, pois não se trata de repetições de ritos de uma data festiva. Tem a ver com uma “encarnação” que, embora não aconteça novamente no plano físico ou biológico, está sempre sendo atualizada em qualquer situação, quando, por menor que seja, na oferta das coisas e das palavras, favorece um “novo”, isto é, uma “novidade” que só pode ser compreendida numa experiência e não numa explicação.

É esta experiência que significa alegria de uma fagulha de vida nova oferecida a alguém, que faz acontecer o “novo” do Natal, pois o divino Recém-nascido re-nasce no humano.

 

Dom Luiz Gonzaga Fechio
Bispo auxiliar de BH