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Nos trópicos, historia sempre se repete. Nunca como farsa. Sempre como tragédia. Esperada, previsível, ciclicamente. Mas sempre trágica.

Não que falte esperança ou vontade. Ano sim, ano não, os votos caem no fundo da urna a já grávidos do desejo de dias melhores. Às vezes a esperança até supera o medo. Mas logo depois, degenera em desastre.

Falta saúde, segurança, transporte, educação, justiça (e acesso a ela), saneamento básico. E muito mais. Pensando bem, falta quase tudo. Precisa-se do Estado. Urgentemente. Mas ele não comparece. Não funciona. Não vem.

Mas os governos não parecem funcionar. Quase sempre. Prometem com pontualidade e faltam com precisão. Emperram o Estado. Corroem e corrompem os serviços. E cobram impostos. Muitos.

A presença do Estado é imperativa, urgente, desesperadamente necessária. Ruas seguras, casas sem grades, bons hospitais, escolas descentes, justiça acessível. Precisa-se do Estado presente, ativo, competente, eficiente. Cidadania, enfim.  Tudo é urgente. Mas não há.

Nos trópicos, a única coisa pior do que a ausência do Estado talvez seja o encontro com ele. É no encontro com o Estado que a realidade esmaga a esperança. Os serviços não funcionam. O Estado não está a serviço do cidadão. Criou vida própria. Concentra energias em manter estatais e monopólios desnecessários. E nega atenção onde é vital. Virou máquina de comer imposto e produzir indiferença. É traumático.

Nada pior que precisa do Estado tropical. Temerário colocar o destino em suas mãos. Vai faltar frequentemente. É injusto. E não dá ao cidadão, acesso a recursos para corrigir injustiças. Cidadania não é prioridade. Não está sequer no radar.

Mas os trópicos gostam de jeitinho. E, ao invés de consertar o Estado, adota paliativos. Loteiam territórios. Constroem muros. Compram grades.   Assistem a degradação da escola publica. Convivem com ausência de transporte publico de qualidade. Adaptaram-se ao cheiro da falta de saneamento.

Nada disso é solução.  Sem Estado presente, não qualidade de vida. Nem vida civilizada, enfim. Cidadania não vem de graça. É conquistada. E depende da vigilância dos cidadãos.

Sem a presença do Estado,  não há esperança. E sem cidadãos, não há cidadania. Nem Estado de direito.

Elton Simões
Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).