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O caminho da etimologia já nos permite vislumbrar por onde anda o perdão. Em latim se diz per+donum. Temos o afixo per e a raiz básica donum. Donum significa dom. Portanto, lá na fonte originária do perdão está um dom, um presente, uma oferta. O afixo per com frequência denota levar a realidade em questão a grau máximo. Assim, quando fazemos alguma coisa – feição – e queremos que ela chegue a estado superior falamos de per+feição. Então o dom – dão – extremado é per+dão, perdão.

 

Logo, só se entende perdão fora de qualquer jogo comercial do ut des, dou para que me dês. Pertence ao mundo da gratuidade, da não espera de reciprocidade. Há entrega incondicional ao outro para dizer que o dom do nosso amor chegou ao ponto de encobrir qualquer ofensa, qualquer menoscabo para ser perdão.

 

 Perdão, em última análise, nasce da graça de Deus. Realidade teologal. Na base está o amor

Não se trata de esquecer a ofensa recebida, nem de desculpar o ofensor. O esforço vai noutra direção. Continuamos conscientes de que nos ofenderam e, às vezes, claramente de maneira injusta e quem sabe, cruel. Ninguém imagina que Jesus na cruz, ao olhar os algozes a torturá-lo até a morte, esqueceu a maldade de muitos que o conduziram até lá. Mas, em gesto de amor, pede ao Pai que os perdoe. Ele mesmo se esforça por compreender como tudo aquilo acontecia dentro do projeto de salvação.

                 

Perdoar supõe buscar compreender o conjunto de circunstâncias que propiciou a ofensa. Não conseguimos apagar ou suprimir o agravo. Nem implica necessariamente renunciar a punir o ofendedor, conforme o caso. Perdoar não se identifica com clemência, nem relevar a pena, no sentido jurídico.

 

O gesto do perdão opõe-se radicalmente ao ódio. Triunfa sobre o ressentimento. Renuncia a vingança, o rancor. Elimina qualquer raiva contra quem nos ofendeu, mesmo lembrando-nos da ofensa. Recusa somar ódio a ódio; egoísmo a egoísmo; cólera a violência. Ao suprimir o ódio, dispensa justificativa. Se permite o castigo, encara-o de maneira mais serena. Não submete o perdão a alguma escala de tamanho da ofensa. Perdoa-se sem mais. Não tem limite de falta. Jesus perdoou o pecado de matar o próprio Filho de Deus.

 

O amor implica necessariamente o perdão e vice-versa. Supera toda virtude. Não é uma virtude, mas a plenitude de todas elas

Ao oferecer o perdão aos maus, pensemos na sua infelicidade e procuremos que saiam dela. Ser mau faz a pessoa infeliz, mesmo que não o demonstre. Nas horas de solidão e de desabafo, revelam a dor de terem sido maus, ofendendo a alguém. Fazê-lo friamente, demonstra cinismo que remonta, não raro, a problema profundo de personalidade. E a raiz está lá na infância não amada, não cuidada. A psicologia ajuda-nos a criar o clima de perdão, embora não alcance a sua profundidade.

                  

Perdão, em última análise, nasce da graça de Deus. Realidade teologal. Na base está o amor. Quem ama, já perdoou. Só amamos de veras pela força do amor de Deus presente em nós. O amor implica necessariamente o perdão e vice-versa. Supera toda virtude. Não é uma virtude, mas a plenitude de todas elas. Por isso, o perdão verifica o amor, no sentido etimológico do verbo. Faz o amor verdadeiro – verum+facere .

 

O amor visibiliza a misericórdia. De novo, a beleza da etimologia: cor + miséria: o coração que se volta para a miséria e a acolhe. Não julga. É criativo. Faz o outro renascer.

                  

O amor humano se espelha no divino que atingiu o ápice de revelação na cruz. Santo Estêvão demonstra-o já nos inícios do cristianismo a partir da força do amor perdoante de Jesus.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)