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O caminho da beleza- Artigo de Felipe Magalhães



Intimidade e confiança são chaves importantes para pensarmos a fé hoje.

 “Tu me seduziste, Senhor, e me deixei seduzir […]” (Jr 20,7). A fala do profeta Jeremias, longe de qualquer aspecto romântico, é de revolta contra Deus, como poucas vezes se encontra em toda a Bíblia. O surpreendente, no entanto, é a intimidade do profeta com o Senhor que, aparentemente, pregou-lhe um “engodo”, ao dar-lhe a missão. Essa intimidade se revela numa dupla dinâmica: a primeira, no fato de revoltar-se contra Deus; a segunda, no fato de, mesmo sentindo-se enganado, o profeta confiar nesse Deus e, por isso, ele cumpre sua missão. Situação parecida vemos em Jesus, no extremo do cumprimento de sua missão: o mesmo Filho que gritou o abandono, por parte do seu Pai, torna-se ele mesmo abandono, revelando confiança em Deus: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc, 23,46).

Intimidade e confiança são chaves importantes para pensarmos a fé hoje. Nosso tempo hodierno, tão multifacetado e fragmentado, interpela-nos a novas posturas de testemunho e de anúncio da fé. Os caminhos evangelizadores pensados a partir do Bem e da Verdade, que responderam às interpelações próprias de tempos passados, já não bastam se queremos dialogar com as pessoas de nosso tempo. Em nosso horizonte, desponta um caminho evangelizador que tende a ser frutuoso: o caminho da Beleza. Inspira-nos a fala de Dostoievski de que a Beleza salvará o mundo. É próprio da Beleza revelar o real e, por isso, ela está intimamente atrelada à Verdade e ao Bem, e por isso, ao próprio Deus.

Fazer opção por trilhar o caminho da Beleza, no exercício do testemunho e do anúncio da fé, é não partir dos dogmas (= Verdade), tampouco dos imperativos morais (= Bem) que deles decorrem, mas revelar o amor que verdadeiramente salva e que dá sentido à vida das pessoas de hoje. Para isso, precisamos propor verdadeiras e profundas experiências espirituais às pessoas. Os exercícios de religiosidade precisam conduzir as pessoas a experiências de sentido, de intimidade e de confiança, consigo mesmas, com os outros e com Deus. Foi exatamente este o exercício feito por Jesus, em sua vida pública. O olhar profundo de Jesus para a vida das pessoas foi o que tornou possível o salto de fé da Samaritana (cf. Jo 4,1-39) e o encontro de comunhão com Zaqueu, que não precisava subir na árvore para ver o Senhor, porque o próprio Jesus se aproximou dele (cf. Lc 19,1-10).

Jesus mesmo se dizia o “Belo Pastor” (Jo 10,14), porque revelava o rosto amoroso do Pai, ao mesmo tempo que trazia sentido e dignidade à vida das pessoas. O mundo carece de manifestações de Beleza. Estamos perdendo nossa capacidade simbólica. As metáforas estão cada vez mais esvaziadas. E é justamente por isso que a mensagem de Jesus, por meio da Beleza, é um caminho que dialoga com o nosso tempo. Se quisermos fazer experiência com o sentido, isto é, viver uma profunda espiritualidade – religiosa ou não –, precisamos seguir o conselho de Jesus e olhar as aves do céu e os lírios do campo (cf. Mt 6,26.28). Só assim nos deixaremos seduzir, não num sentimento de engano, tal como o profeta, mas porque nos encantamos com a Beleza que salva e que nutre a intimidade e a confiança. À nossa frente, um caminho de Beleza, como verdadeiro caminho espiritual, está dado. Tenhamos, pois, coragem de trilhá-lo e salvemos o mundo!

Felipe Magalhães Francisco
Mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.
Coordenador da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de BH
Autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015)