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O Brasil que chega ao porto eleitoral

 O Brasil que chega às eleições do próximo 5 de outubro se assemelha ao navio que chega ao ancoradouro, com instalações precárias, motor quase parando, depois de realizar uma travessia cheia de borrascas no giro por três grandes oceanos.

Os passageiros, cansados e famintos, querem desembarcar o mais rápido possível para recuperar as energias e, quem sabe, tentar, mais adiante, embarcar num desses transatlânticos confortáveis, onde poderão viajar por águas mais calmas, viver momentos aprazíveis e ancorar em portos seguros.

A longa viagem não foi em vão. Passadas três décadas, o país que se aproxima de um novo pleito presidencial, com desfecho previsto para 26 de outubro, se mostra disposto a fechar um ciclo que pode ser registrado com o selo da “mesmice” e abrir uma era de “efetivas” mudanças.

As aspas no adjetivo objetivam realçar o propósito mudancista clamado por imensa maioria da população e indicar que, doravante, promessas de candidatos nessa direção não ficarão no papel. Pois a sociedade descobriu “o caminho das pedrinhas” para fazer valer o jogo.

Este é o primeiro traço do desenho que se faz do gigante que, como se percebe, deixou de dormir em berço esplêndido. O povo nas ruas sinaliza o encontro do cidadão com a pertinência que lhe dá o direito de se achar o legítimo dono do poder. A descoberta não é obra do acaso.

Desenvolveu-se ao longo de anos a fio de convivência social com práticas depravadas na política, promessas nunca cumpridas por representantes do povo, escândalos em profusão envolvendo políticos, burocratas e grupos privados e partidos assemelhados em atitudes.

O senso crítico ganhou forma, avolumou-se, espraiando-se por um tecido social mais orgânico e agora disposto a cobrar a fatura dos governantes.
O Brasil se apresenta, hoje, como uma sociedade moderna, organizada em núcleos, setores e categorias, alterando, portanto, a antiga feição que flagrava multidões sem direção, contingentes desorganizados, massas amorfas.

Explica-se, assim, a redistribuição do poder, saindo do centro para as margens, da esfera institucional em direção aos novos polos de força que se multiplicam no território. São esses as alavancas das mudanças.
A descrença na política e em seus atores, expandida na esteira de escândalos, sinaliza a emergência de outros fenômenos, como a fragmentação partidária, o fim da polarização entre o PT e o PSDB e a inviabilidade de projetos de hegemonia.

Este é o Brasil sociopolítico que aporta no ancoradouro das eleições
O próximo tripulante, seja quem for, terá de levá-lo ao estaleiro para fazer nele uma boa reforma e garantir aos passageiros uma viagem sem sustos

A pulverização partidária chegará ao ápice na próxima legislatura, quando, no Senado, por exemplo, 18 legendas se farão representar (hoje são 16), o maior número de toda a história. Já na Câmara, pesquisas apontam para a presença de 28 legendas na Casa (hoje são 22) e uma renovação que pode chegar a 50%, quando em 2010 esse índice foi de 44%. Essa dispersão torna mais difícil a meta de grandes partidos de assentar no trono da hegemonia, tornando-os cada vez mais peças do jogo de parcerias.

A polarização entre tucanos e petistas, que se desenvolveu ao longo das últimas três décadas, sinaliza cansaço. Só no Mato Grosso do Sul e em Minas vê-se ainda um debate entre os nomes dos dois partidos.

Como se pode aduzir, esses fenômenos sugerem maior repartição de poder entre os entes, esforço redobrado na estratégia de formação de coalizões e, por conseguinte, maior sujeição do Executivo ao espectro partidário.
           
Que outros matizes se fixam no mapa do Brasil eleitoral? Seria possível afirmar, por exemplo, que o país está dividido? Sob o prisma aritmético, levando em consideração as preferências eleitorais entre candidatos, a resposta é positiva.

Tal divisão aponta, de um lado, para a substituição e, de outro, para a continuidade do mandatário-mor da Nação. Mas, como já se disse, a ampla maioria da população concorda com a necessidade de mudanças na gestão e na política, seja com a candidata à reeleição, Dilma, seja com a opositora Marina ou o tucano Aécio.

Não se pode negar, porém, que os ânimos estão acirrados também em função do recorrente discurso do PT, que teima em separar os habitantes do território entre “nós” e “eles”, na defesa do apartheid que azeda relações entre grupos e classes. A situação se agrava quando o PT, teimando em se dizer inocente, se torna, ele mesmo, fonte central de casos de corrupção.

Não é outra razão pela qual o Partido dos Trabalhadores, mesmo ganhando a cadeira maior do Palácio do Planalto, não terá a força de outrora. Construiu uma imagem que se esboroou, perdeu coerência ideológica, abriu querelas internas, perdeu entusiasmo das bases, tornando-se sigla identificada com desmandos e desvios.

Também o PSDB, mesmo continuando à frente de Estados importantes, como São Paulo, terá uma fatia menor no bolo do poder, perdendo envergadura. Trata-se também de partido desgastado, que não soube canalizar forças em seu papel de oposição ao governo federal.

O conjunto de fenômenos que marca a atual quadra política se completa com uma leve guinada conservadora. Seria exagero defender a hipótese de que o país faz uma curva forte à direita. Mas é possível divisar tênue marca conservadora, a partir de um PT empacotado na pasteurização, apesar de manter o bolorento discurso de luta de classes, sempre brandido por Lula.

O exemplo e o discurso do Partido dão empuxo à uma onda contrária. Sob outro ângulo, o próprio perfil da candidata do PSB parece ser um corpo estranho ao habitat da sigla. Marina, evangélica, defende posições duras em matérias que ferem postulados da fé religiosa (ou batem no intocável e sagrado templo ambientalista), ganhando de críticos o epíteto de fundamentalista, expressão próxima ao conservadorismo.

Este é o Brasil sociopolítico que aporta no ancoradouro das eleições. Sem mudar os cascos, o velho navio não suportará novo e longo trajeto. O próximo tripulante, seja quem for, terá de levá-lo ao estaleiro para fazer nele uma boa reforma e garantir aos passageiros uma viagem sem sustos.