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Novos caminhos rumo à juventude

A compreensão do que é juventude mudou muito durante a história. A precocidade da vida fazia com que esta fase fosse diminuta. A adolescência era imperceptível. As contingências não favoreciam viver ou perceber toda esta época da vida. Hoje a sociedade mudou. A expectativa de vida avançou. Aumentou o tempo de estudo, a preparação para o mercado de trabalho. A maturação para inserção na sociedade demora mais, exige-se mais. Contudo, a vida relacional, sexual tornou-se cada vez mais precoce. Paradoxo onde o processo de maturidade não é integral.
 

Só uma relação de amor e confiança oferece pistas para o amadurecimento e para que os jovens não se percam.

Hoje é necessário compreender o tornar-se jovem.  O princípio é a infância que vem de in+fari ou in+fans. Ou seja: não falar. É uma fase que cada experiência traz marcas por toda a vida: questionamentos, opções, rebeldias, traumas. Há um caminho traçado pelos guias da criança (pais, catequistas, professores, ídolos). E avança para a explosão hormonal da adolescência. A palavra origina-se de adolere e significa: levou para cima, subiu, ofereceu sacrifício, holocausto, fazer que algo cresça, brote, se faça grande, se fortifique. Mas a adolescência perdeu muito da fonte da palavra. Popularmente tornou-se “aborrecência”. A travessia por esta fase é marcada por desorganização mental, instabilidade temperamental e emocional, mas também busca pela autonomia e identidade. Mesmo sob as referências familiares, ainda que as mídias exerçam maior influência nos dias de hoje.

Chegamos à palavra jovem que vem de ajutans, ajutare que significa a idade de quem ajuda. Situa um amadurecimento da alteridade – abertura ao próximo; afirmação da autonomia – nas relações, escolhas, valores. Afirmação da subjetividade – autodefinição. Desenvolvimento da identidade, esperança de um mundo melhor, sensação de onipotência e imortalidade, intensa busca de experimentações. Juventude inclui, ainda, reorganização mental e instabilidade temperamental e emocional, ou seja, oscilações sem causa suficiente ou adequada, que pode extrapolar os limites de diversas formas. Muitas destas características começam na adolescência e tomam novos contornos na juventude.
 

Mais que delimitar diretrizes deve-se compreender quem é o jovem, suas características e ver como pode ser frutuosa a catequese.

Busca-se, sobretudo, realização afetiva. A descoberta da amizade muda a compreensão das relações familiares e mesmo com Deus. Questiona as leis. Critica-se tudo. Sem rumo, a modernidade oferece momentos intensos. Amplia-se a vida social (festas, namoro, chats). Vive-se pelo presentismo. Ainda assim, a juventude é tempo para encontrar o ideal da vida, elaborar o projeto de vida. Busca-se isso nas relações mais profundas e por meio de conselheiros, pessoas referências ou ídolos midiáticos, que ofereçam segurança.

A grande pergunta que surge é: o que fazer da minha vida? Surgem crises de fracasso, por não realizar sonhos vindos da infância e adolescência. Sente-se o peso das imposições da vida, dos compromissos. Época também de intensa competitividade e certa tendência a experimentar novas emoções. Papel salutar têm os acompanhantes dos jovens, pois só uma relação de amor e confiança oferece pistas para um amadurecimento, para que eles não se percam, tragicamente, até nas drogas.

Definir as idades para as etapas da vida não favorece a compreensão das suas características. Por vezes elas se entrelaçam. Amadurece-se certa dimensão da vida como a biológica não correspondendo, necessariamente, à maturidade afetiva, ou espiritual, ou mesmo da interioridade. Vemos adultos em idade, por vezes responsáveis em suas tarefas profissionais, mas com comportamentos dignos da adolescência ou resquícios da infância que não foram trabalhados.

 No Brasil se concebe a juventude dos 15 aos 29 anos e são cerca de 20% da população. No Japão esta fase estende-se até os 40 anos. Socialmente relevamos muito a questão da idade em relação à maturidade. Exige-se 16 anos para votar, 18 anos para assinar documentações oficiais, habilitação para dirigir, assumir responsabilidades civil-penais, para ser eleito vereador, 21 anos para ser deputado federal, estadual, prefeito e vice, 30 anos para ser governador, 35 anos para ser presidente.

A catequese também considera questões psicológicas para traçar as diretrizes sobre a idade para a Crisma. Mais que delimitar diretrizes deve-se compreender quem é o jovem, suas características e ver como pode ser frutuosa a catequese se as considerarmos.

 

Ricardo Diniz de Oliveira
Membro da Comissão Arquidiocesana de Catequese