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Mudar de cara, mudar de vida

 

Há algum tempo venho observando como o conceito de “mudança” está sendo tratado nos meios de comunicação, sobretudo nos programas de auditório que vão ao ar nas tardes de domingo. Refiro-me às vezes em que os apresentadores escolhem uma pessoa comum – normalmente pobre, feia e maltratada – e lhes oferecem alguns benefícios estéticos, prometendo-lhes vida nova. Seguem-se sessões de cabeleireiro, massagem, lipoaspiração, maquiagem e até pequenas cirurgias plásticas que visam transformar a pessoa.

Depois de um bom “banho de loja”, a sortuda é apresentada ao palco como “nova”, arrancando os aplausos e a admiração do auditório. Para realçar, coloca-se um “antes e depois”, em que se escolhe a pior e a melhor foto.

Tomei um susto quando, num desses programas, a filha de uma felizarda exclamou: “Ela nasceu de novo!”. Essa frase explicitou a ideologia que está por trás desses quadros e que se alastra assustadoramente no mundo contemporâneo: a idéia de que mudando a aparência, muda-se a pessoa.

 

Mudar é realmente necessário, Mas  não se deve reduzir a rebocos estéticos
Desconsiderar isso,  significa deixar-se envolver por uma ideologia
que a trata como
corpo e não como
pessoa

De acordo com essa mentalidade, mudar de cara é mudar de vida. Por isso, não é incomum ver pessoas alimentando sonhos de melhor adequar-se ao padrão de beleza atual, corrigindo algum defeito estético, implantando silicone ou simplesmente tornando-se mais apresentável. A motivação é quase sempre a mesma: mudar de vida.

Nas novelas, multiplicam-se as personagens que “dão a volta por cima” através de uma mudança exterior. Com ela, tentam se livrar da frustração de um casamento mal sucedido, vencer a dor de uma traição ou adquirir visibilidade social. Numa palavra: buscam recuperar a autoestima, ou seja, sua própria dignidade como pessoa.

Não há como deixar de denunciar essa ilusão que está sendo criada. Ela comporta um risco imenso: o de que as pessoas pensem que é suficiente mudar a aparência para mudar de vida. Na verdade, não creio que os produtores desses programas levem isso ao ar de forma inocente, sem nenhuma intenção ideológica. O conteúdo desses quadros traduz a tendência atual de tratar as coisas com superficialidade, fugindo de toda consideração séria e aprofundamento das questões cruciais que envolvem a pessoa humana.

Promover uma mudança superficial era o que queria Nicodemos, aquele que se encontrou com Jesus na calada da noite. Ele perguntou ao Mestre: “Como pode um homem renascer sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer de novo?” (Jo 3,4). Note-se que a mentalidade de Nicodemos era carnal. Foi contra ela que Jesus investiu: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3, 5).

Mudar é realmente necessário. Mas a forma de fazê-lo não pode se reduzir a alguns rebocos estéticos. A pessoa que não considerar isso com profundidade, pode estar caindo num grande precipício, ou seja, pode estar se deixando envolver por uma ideologia que a trata como corpo e não como pessoa. Sua frustração será ainda maior quando descobrir que seus esforços foram insuficientes para trazer-lhe auto-afirmação.

Infelizmente, a TV não mostra os resultados subseqüentes de toda essa “transformação”. Para falar a verdade, eu também não gostaria de vê-los. Deve ser decepcionante que alguém seja recebido em seu meio social, totalmente novo por fora, mas o mesmo velho homem interior de sempre.

Uma mudança profunda, essa sim, é deslumbrante! Causa admiração. É resultado de uma ação discreta de Deus junto a uma ativa participação humana. Essa não se ver nos programas de domingo à tarde, mas podem ser vistas nas tardes de domingo, nos lugares em que Deus mesmo é o produtor do espetáculo da transformação.

 

Ronaldo José de Sousa
Leigo consagrado de comunidade de Vida