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Modernidade em cinco palavras

Cinco conceitos básicos, a bem dizer, formam as bases do chamado paradigma da modernidade: razão, ciência, tecnologia, progresso e democracia. São cinco chaves de leitura ou cinco janelas para melhor entender a cultura que acompanha os “tempos modernos”.

De olho nas cinco janelas

A razão tudo desvenda, tudo descortina, tudo “desencanta”. Desfaz os segredos e mistérios que por séculos aterrorizaram os seres humanos e os mantinha de joelhos. Adquire instrumentos para explorar e dissecar os movimentos do universo, as leis da natureza, as motivações da história e o funcionamento do corpo humano. No processo de emergência da subjetividade e da individualidade, do humanismo e do racionalismo iluminista, a razão se emancipa da divindade. Toma o lugar dessa e senta-se no trono vazio, tornando-se a referência última para todo conhecimento.

A ciência é filha direta da razão, sua menina dos olhos. Desencadeia um processo de inventos e experimentos que haverão de culminar, justamente, na revolução científica: física, química, astrologia, mecânica, medicina, filosofia, economia, sociologia, história…

Com o método cartesiano, passa a duvidar das “certezas” absolutas, eternas e imutáveis. Em seu lugar, prevalece a hipótese de trabalho a ser experimentada e verificada cientificamente.

Novas perguntas substituem as antigas respostas, novos desafios exigem instrumentos novos. Mais do que uma descoberta, adequação ou contemplação diante do plano natural e divino da criação, a “verdade” torna-se uma construção laboriosa e coletiva, passível de busca e correção contínuas.

A tecnologia nasce da fusão entre razão e ciência. Ambas geram uma série de artefatos, máquinas e implementos, espécie de braços técnicos, mecânicos e artificiais que se tornam um prolongamento dos membros humanos. Aumenta em escala vertiginosa a capacidade de produção e de produtividade, que desembocará na Revolução Industrial.

Com semelhante ritmo motriz sem precedentes, diminui a distância entre o crescimento populacional e o crescimento dos bens de consumo. Elimina-se, com isso, o fantasma da escassez e o medo da carência. As oficinas, transformadas em fábricas, produzem quantidades superiores ao que a humanidade é capaz de consumir.

A ideia de progresso mergulha suas raízes na teoria da seleção natural, de Charles Darwin, em sua obra A origem das espécies. Se no mundo vegetal e animal o mais forte luta com o mais fraco e sobrevive, a mesma lei pode ser aplicada ao campo da sobrevivência humana. O processo de relacionamento interpessoal, grupal, social, político e cultural tende a selecionar os mais capacitados, descartando os débeis e ineptos. Assim, em linha de máxima, cada geração torna-se superior àquela que a precedeu e inferior à que haverá de segui-la.

Resulta que, associada à razão, à ciência e à tecnologia, tal ideia de progresso cria a concepção de que as sociedades avançam como por uma escada, ascendendo indefinidamente e de forma progressiva.

É verdade que a ciência aplicada trouxe benefícios incalculáveis. Basta pensar na revolução dos meios de comunicação, culminando com a informática. Mas, grande parte desses benefícios são distribuídos de forma desigual.
 

Com a democracia, o poder deixa de ter sua origem na vontade e na filiação divinas. Também ele, como a razão, emancipa-se da esfera do sagrado. O direito ou dever de governar não vem de cima, mas emerge a partir de baixo: governo do povo, pelo povo e para o povo. Pouco a pouco, as dinastias hereditárias tornam-se obsoletas e vão sendo abolidas. Estabelece-se o contrato social, segundo o qual, implícita ou explicitamente, o poder nasce e se fundamenta no equilíbrio entre as forças e interesses em jogo. Sua legitimação, em última instância, não está na benção dos que fazem a intermediação entre a esfera divina e humana, mas na vontade popular.

Entretanto, com o correr dos anos, os cinco conceitos do paradigma moderno revelam uma série de nós, impasses, contradições e, digamos, efeitos colaterais. O otimismo do “século das luzes”, por exemplo, vai aos poucos cedendo o lugar primeiro à suspeita aberta ou velada, depois à crítica teórica e prática e, por fim, ao pessimismo e à oposição direta e frontal.

Inicia-se o que muitos autores passarão a chamar de transição paradigmática. Não se trata de uma época de mudanças, mas de uma mudança de época. E esta questiona pela raiz os próprios fundamentos sobre os quais se assenta a modernidade. Em outras palavras, interpelam-se os valores modernos.

Tempos de crise e de crítica

Com o tempo, instala-se uma crise época onde os “tempos modernos” cedem o passo à pós-modernidade ou à modernidade tardia, de acordo com a visão predominante de determinados estudiosos. Instabilidade e insegurança, medos e angústias, dúvidas e interrogações, temores e inquietudes prevalecem sobre a euforia do positivismo progressista.

Sem dúvida, as barbáries do século XX (duas grandes guerras mundiais, conflitos localizados, genocídios, colonialismo, totalitarismo, bomba atômica, holocausto, guerra fria, injustiça e disparidade socioecônomica entre pobres e ricos, corrupção crônica…), tais formas de barbáries, vale repetir, contribuem vigorosamente para o discurso da mudança, da transição e do questionamento dos valores fundantes.

A razão, por mais lúcida e iluminada, gerou um mundo irracional, sob diversos aspectos. Irracional em termos de distribuição equitativa dos bens de produção. A férrea lei do mercado – lucro, competição, concorrência – tende a uma acumulação progressiva da riqueza e da renda. Agravam-se as distorções da sociedade piramidal, ampliando-se a distância entre a base e os andares superiores.

Irracional também em termos ecológicos. A cobiça e a ambição usa de forma indiscriminada todos os recursos naturais disponíveis. Os resultados se revelam na poluição do ar e das águas, na devastação do meio ambiente e no desaparecimento de não poucas espécies de fauna e flora. Convém não esquecer que cada espécie que desaparece torna o ser humano mais pobre.

E irracional, ainda, em termos trabalhistas e culturais. O mesmo critério do lucro a qualquer preço comanda o uso da força de trabalho e do patrimônio artístico da humanidade, fruto das gerações passadas. Tudo isso, evidentemente, compromete a saúde do tecido social, político e cultural.

É verdade que a ciência aplicada trouxe benefícios incalculáveis. Basta pensar na revolução dos meios de comunicação, culminando com a informática, na expansão da rede de transportes que hoje corta todo o planeta, no enriquecimento da culinária, no conforto pessoal e familiar, nos avanços da medicina que melhora a qualidade de vida e a prolonga… Mas grande parte desses benefícios são distribuídos de forma desigual.

A serviço de empresas privadas e interesses transnacionais, com inusitada frequência os cientistas se vendem a quem paga melhor. E quem paga escolhe o cardápio. Daí as contradições no interior da pesquisa científica: em lugar de eliminar, por exemplo, a pobreza e a miséria, a subnutrição e a fome de milhões de pessoas; em lugar de combater as doenças contagiosas, especialmente nas regiões abandonadas; em lugar de trabalhar para que todos tenham acesso à água potável, aos alimentos sadios e a um vestuário adequado… muitas vezes a ciência se perde em projetos mirabolantes e bem mais lucrativos.

Irmã gêmea da ciência (e como ela filha da razão), a tecnologia lhe segue de perto os passos. Se, por um lado, ciência e tecnologia são responsáveis pelos benefícios do progresso, por outro, são igualmente responsáveis por sua acumulação escandalosa nas mãos de poucos privilegiados.

Mais grave ainda: ao invés de empenhar-se pela superação do sofrimento em todo o globo terrestre, muitas vezes e de forma inusitada, a tecnologia põe-se a serviço da indústria bélica. Diz o ditado popular que “a guerra faz o jeep”. E, de fato, uma série de avanços tecnológicos se deve à barbaridade de criar gigantescas “máquinas de matar” – como o são os exércitos e as armas de última geração.

Aqui, também, ao mesmo tempo em que se desenvolvem projetos faraônicos, gastando milhões e bilhões de dólares em fantasias públicas ou privadas, a sede e a fome, a doença e o abandono seguem dizimando enorme quantidade de crianças pobres e indefesas.

Quanto ao progresso, basta reportar-nos à Constituição Pastoral Gaudum et Spes (1965), do Concílio Ecumênico Vaticano II, por uma parte, e, por outra, à Carta Encíclica Populorum Progressio (1967), do então Papa Paulo VI. Ambas denunciam a discrepância entre o crescimento econômico, cada vez mais acelerado, e o desenvolvimento humano, sempre mais problemático e desigual, ou seja: o progresso científico e tecnológico, embora guiados pela razão humana (ou precisamente por isso!), sofre de um vício intrínseco e incurável: concentra, ao mesmo tempo, a riqueza e exclusão social.

Tendo como motor o lucro e a acumulação de capital, provoca crescente desequilíbrio socioecônomico. Contraditória e paradoxalmente, a maior capacidade de produção e de produtividade cria “ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, como lembrava outro Papa, São João Paulo II, em sua visita ao México. Um dos subtítulos da Populorum Progressio – “O desenvolvimento é o novo nome da paz” – aponta a direção justa do progresso. Este deve ser integral, isto é, direcionado “ao homem todo e a todos os homens”.

Por fim, a democracia! E aqui o pessimismo se faz sentir de forma bem mais pesada e amarga. Basta um olhar veloz, a voo de pássaro, pelo países que se dizem orientados pelos critérios da democracia para dar-se conta que esta se encontra gravemente enferma.

Poucas instituições modernas acumulam sobre si mesmas tanta desconfiança, desencanto e, no fim da linha, aberta hostilidade. Democracia hoje é claramente campo minado: corrupção crônica, promiscuidade, corporativismo, tráfico de influência pública, enriquecimento ilícito, desvio e/ou uso incorreto de verbas, sede de poder, privilégios e benesses, balcão de negócios, compra e venda de votos/eleitores, monopólio dos meios de comunicação social… constituem, entre outras, as bombas ocultas sob o terreno movediço e escorregadio do sistema democrático. E isso de uma forma tão generalizada que, a partir do lado de fora (e, talvez, mais ainda do lado de dentro), torna-se indistinta e nebulosa a linha divisória entre os partidos, os posiconamentos políticos, bem como a direita e a esquerda.

Tais instâncias, com efeito, mais do que bases para uma ação coordenada, se convertem em escadas para a ascensão de um e de outro. Escadas que podem ser feitas, desfeitas e refeitas, de acordo com interesses escusos ou circunstâncias oportunistas.

“Nem todos os políticos são iguais”, dizem vozes na surdina. E é verdade, há excelentes e notórias esceções! O problema, porém, não está neste ou naquele candidato, deputado, senador, prefeito, governador ou presidente. O problema está nos mecanismos de um sistema que, desde séculos, promove e encobre atitudes viciadas, seja durante a candidatura, seja durante o mandato. E, ao mesmo tempo, permite a defesa promíscua e corporativista do “aliado” de partido ou de coalisão, bem como sua “fritura” ou linchamento político implacável e ireverssível.

Pior ainda é a relação com os eleitores. Proximidade interesseira e arrogante indiferença se alternam, segundo o período da candidatura ou do exercício do mandato. Além disso, uma vez mais, as leis do mercado ditam as regras e subordinam a política econômica aos próprios jogos especulativos.

Verifica-se um abismo profundo e praticamente insuperável entre os debates e as decisões nos corredores dos três poderes – legislativo, judiciário e executivo – de um lado e, do outro,  as necessidades básicas e urgentes particularmente da população de baixa renda. A democracia agita as ondas superficiais e visíveis no cenário do teatro político, com a constante troca de atores e máscaras, mas é incapaz de tomar as rédeas das correntes subterâneas e invisíveis da economia, em especial do cassino internacional do capital financeiro.

Os cinco conceitos iniciais revelam toda a ambiguidade da trajetória moderna e democrática. Chaves e janelas que, respectivamente, se enferrujam ou se obscurecem com o passar da história. O que leva ao discurso da “ética na política”, bem como ao retorno do sagrado ou de Deus. Mas Ele só age dentro das coordenadas da história, em comunhão com a ação humana.

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais