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A gente já deveria ter se acostumado com a mentira. Desde que o mundo é mundo, o ser humano convive com ela. Principalmente nas ultimas décadas, onde as imagens gravadas não deixam duvidas sobre as palavras, seu conteúdo e sua intenção.

A vantagem do mundo moderno talvez seja esta. A de poder eliminar qualquer duvida sobre a existência ou não da mentira. A prova da mentira e a identidade do mentiroso estão sempre à disposição. E a identidade do mentiroso.

Curiosamente, o efeito desta prova instantânea, inegável, inapelável, parece não ter aumentado a intolerância contra a mentira. Mente-se cada vez mais. E com cada vez menos compromisso ou preocupação com as consequências futuras do que foi dito, ou mesmo com a responsabilidade pelas falsidades passadas.

Décadas atrás, um presidente americano apanhado em mentira sofria graves consequências. Nixon que o diga. Disse que não era aquilo que de fato era e, com isso (ou talvez por isso), perdeu o mandato.

O tempo passou e, parece que, tendo a tecnologia transformado negação da mentira em exercício inútil, a solução foi parece ter sido abraçá-la com paixão. Faz tempo que mentir deixou de ser feio. De ter consequências serias. Ou mesmo ser conduta socialmente indesejável.

 

De comportamento inaceitável, a mentira virou hábito. E foi depois promovida a método. Esqueceu-se que mentira não constrói

Foi assim que os EUA elegeram presidentes que prometeram cortar impostos, mas, uma vez no poder, os aumentaram. Outros que mentiram sobre sexo. E outros, ainda, basearam guerras na existência de armas de destruição de massa.

É difícil precisar exatamente quando aconteceu, mas em algum  repente, mentir, e ser pego na mentira, não mais trazia consequência. Mentir já não era feio. Virou  hábito.

Hábito esse, cá para nós, que se não tivéssemos copiado evitaríamos muitos transtornos. Poderíamos até ter fumado menos já que nicotina, ao contrário do que os fabricantes de cigarros diziam, vicia de fato. Ninguém seria fiscal do Sarney cruzado. Famosos e/ou desconhecidos poderiam evitar esta mancha em suas biografias.

Não adotando mentiras como habito ou pelo menos não as aceitando como norma, poderíamos ter evitado o Plano Collor; talvez, mesmo o governo Collor como um todo.
Poderíamos até quem sabe, ter diminuído a corrupção. Bastava rejeitar a mentira e cobrar providências reais, verdadeiras, sinceras. Bastava abraçar os fatos e compará-los com as versões fantasiosas.

De comportamento inaceitável, a mentira virou hábito. E foi depois promovida a método. Esqueceu-se que mentira não constrói. Apenas entrega ilusão travestida de realidade.

A verdade parece cada vez mais incômoda, inconveniente, desagradável, indesejável, enfim. Destinada a ser sempre protegida por um muro de mentiras.

A verdade não mais é ditada pelos fatos. A verdade passou a ser simples consequência da narrativa. De quem narra. De quando narra. Do porque narra.
Deu no que deu.

 

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)