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Maria Santíssima, a Virgem Pascal

O culto à Virgem Maria encontra na piedade popular as mais diversas e ricas expressões. A Constituição Dogmática Lumen Gentium incentivou o culto mariano recomendando, sobretudo, o culto litúrgico ( LG, n. 67). A Sacrosanctum Concilium afirmou que “a santa Igreja venera com especial amor, e porque unida indissoluvelmente à obra de salvação do seu Filho, a bem-aventurada virgem Maria, Mãe de Deus, em quem vê e exalta o mais excelso fruto da redenção, e em quem contempla, como em puríssima imagem, tudo o que ela deseja e espera com alegria ser.” (SC 103). O magistério pontifício promulgou uma fartura de encíclicas e documentos que contemplam Nossa Senhora e sua participação no mistério de Cristo.

No ocidente, o mês de maio recebeu o título de ‘mês mariano’, desde o final do século XVI. Justíssimas as homenagens prestadas à Mãe de Deus. O Papa Paulo VI publicou carta encíclica intitulada Mense Maio (Mês de Maio), na qual afirma: “É-nos muito grata e consoladora esta prática tão honrosa para a Virgem e tão rica de frutos espirituais para o povo cristão” (MM, n. 2). O Papa publicou esta encíclica em abril de 1965, para solicitar especiais orações no mês de maio seguinte. Ele pedia orações à Virgem pelo bom êxito do encerramento do Concílio Vaticano II e por mudanças na situação político-econômica global. Trata-se de um documento no qual a voz do pontífice se ergue no contexto da defesa da dignidade humana, “para deplorar os atos de guerrilha e de terrorismo”.

 

Somos convidados a reconsiderar a importância dos meses temáticos, para que não impeçam o aprofundamento do mistério de Cristo.

Mas nem tudo são flores na piedade mariana. Celebrar nossa devoção a Maria, em maio,  muitas vezes sufoca o tempo litúrgico corrente. A Constituição Sacrosanctum Concilium não deixa margem para dúvidas: “Importa, porém, ordenar esses atos de piedade, levando em conta os tempos litúrgicos, de modo que estejam em harmonia com a sagrada Liturgia, nela se inspirem, e a ela, por sua própria natureza muito superior, conduzam o povo cristão” (SC n. 13). Maria Santíssima quer cantar conosco a Páscoa do Senhor. Ao homenageá-la, é preciso que tenhamos clareza quanto à precedência litúrgica do Filho sobre a Mãe, que se maravilha no Senhor por sua escolha como Mãe do Salvador.

O Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (DPPL), publicado em 2002 pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao tratar dos “meses marianos” refere-se a “alguns problemas de índole litúrgico-pastoral que merecem uma cuidadosa avaliação” (DPPL, 190). O documento reprova qualquer tentativa de abolição do mês mariano,  que “em grande parte coincide com os cinquenta dias da Páscoa”. Nele, as práticas de piedade deverão enfatizar a participação da Virgem no mistério pascal e em Pentecostes.

O Diretório também chama nossa atenção e nos convence sobre a importância do domingo, memória semanal da Páscoa, como o “dia de festa primordial” (SC 108), em que o culto mariano não deverá prevalecer sobre os mistérios da redenção. Encontramos eco para esta afirmação no Diretório Pastoral Litúrgico Sacramental da Arquidiocese de Belo Horizonte, n. 23. Por meio dele, somos convidados a “reconsiderar a importância dos meses temáticos, para que não sufoquem os tempos litúrgicos e impeçam o aprofundamento do mistério de Cristo, desvirtuando assim o sentido da liturgia como vivência e comunhão no mistério, e do Ano Litúrgico com sua mistagogia”. “Louvor a Maria” é figura de linguagem. Louvamos, sim, a Deus que a criou e a esposou.
 

Pe. Antonio Damásio Rêgo Filho
Pároco da paróquia Santa Teresinha
do Menino Jesus da Santa Face

 

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