Você está em:

Em tempos novos de “movimento” da fé (eclesial) e das massas (social), surge um grande despertar: seja aquele suscitado pelo Papa Francisco, quando do início do seu Pontificado, seja este das manifestações populares que, recentemente, levaram milhares de pessoas às ruas das cidades brasileiras, configurando o despertar do “gigante adormecido”. Portanto, estamos sacudidos, conclamados a sair da inércia e assumir os passos de um caminho que precisa de uma direção.

Mas nossos olhares se voltam para muitas direções. Existem múltiplas questões articuladas e tantas outras ainda embrionárias. Para cada uma delas muitas bandeiras foram levantadas, enquanto outras ainda serão erguidas. Contudo, é preciso buscar aquele feixe de luz incidente no coração para clarear o desejo de nos posicionar com adequada postura neste momento. Para conjugar a vontade de socorrer e responder a tantas buscas ainda insatisfeitas, com a pertinência da capilaridade missionária já estabelecida.

Nesse contexto de pessoas reunidas em torno das inúmeras causas e tendências estabelecidas, ouso remeter meu olhar para aquele núcleo que atualmente chamamos “juventudes”.  Um grupo presente no universo social e também eclesial, sob o signo cultural diversificado, igualmente pluralizado, sob matizes de espiritualidades e engajamentos, da mesma forma, multifacetados. Há, portanto, uma urgência existencial coletiva para saber dar possíveis respostas à pergunta: “quem são os integrantes deste núcleo?”.

As demandas de seus corações exigem redobrada atenção para a consolidação de um diálogo aberto para o discernimento de cada vocação.

São perspectivas carentes de provisórias e corajosas identificações da dimensão vocacional, que tangencia diametralmente todas as direções existenciais. De fato, aos jovens – de forma geral – são cobrados seus sonhos vocacionais: para onde caminham? O que buscam? Como se preparam? O que esperam? Onde se encontram seguros? Como sobrevivem? O que percebem? Que critérios usam para se relacionar?

Esta sede de individuação, de ampliação da consciência, no horizonte vocacional parece expressar, desde sempre, a busca de uma harmonia da vontade de segurança que conecta o hoje com o amanhã. Um futuro qualificado de humanidade geratriz de continuidades, de avanços processuais de vida (iniciados agora e, portanto, irreversíveis) para o alcance da justiça e da paz.

Na verdade, o jovem contemporâneo, mais do que noutras épocas anteriores certamente – se não há exagero e equívoco –, é mais corporativo, culturalmente mais vinculado e diversificado, devido ao mundo ciberneticamente consolidado. Já não é e nem pode ser novidade que as “juventudes” expressam a vitalidade por um viés nada convencional, não identificado por estruturas clássicas e cristalizadas, nem políticas, nem religiosas. Essa expressão se dá por meio de uma nuance totalmente nova, exigindo alargamentos inusitados do coração para escutas atentas, acolhidas sinceras, orientações responsáveis, apoios verdadeiros e correções necessárias.

A pergunta vocacional, para as juventudes, não é facultativa. É instância estimuladora que mantém vivo o incômodo interior.

Sim, cada jovem continua sendo um “sonho vocacional”. As demandas emergentes de seus corações ansiosos, de Verdade e de Liberdade – às vezes corações feridos e conflitados por incontroláveis fatores sociais e, principalmente, familiares–, exigem redobrada atenção para a consolidação de um diálogo aberto na verificação de cada vocação. Um processo vital de segurança existencial para os passos tão provisórios do cotidiano.

A pergunta vocacional, portanto, para o universo das “juventudes” não é facultativa. É, sim, instância estimuladora e necessária que mantém vivo o incômodo interior. Que permite despertar movimentos singulares e comunitários, acolhedores de tantos meios úteis para que cada jovem habite em paz seu mundo de felicidade. É uma pergunta igualmente necessária para que percepções precipitadas e injustas não se instalem gratuitamente na abordagem das manifestações, muitas vezes desqualificadas como inadequadas, mal formadas e/ou deformadas pelas falhas nas de posturas e processos ainda em curso, em vias de aperfeiçoamento.

Assim, “tempos novos, novas percepções” – um processual despertar! Novos movimentos efetivos e afetivos, eclesiais e sociais, porque culturais e, consequentemente, familiares. Os jovens estão aí. Continua sendo deles o amanhã. São “pontes”. Eles se conectam com as sedentas multidireções do olhar do coração e avançam… São eles, presença bela e crítica, inovadora e oportuna. Seu lugar legítimo é o do movimento da verificação de sua vocação, seja ela qual for, como caminho de sentido e felicidade. Portanto, é preciso assegurar-lhes democrática e eclesialmente este lugar, para que salvaguardados seus direitos de participação, aprendam igualmente a arte de assumir seus deveres de irmãos de todos, pois são filhos amados de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Nivaldo dos Santos Ferreira
Pároco da Paróquia Santíssima Trindade
Reitor do Seminário Arquidiocesano Coração Eucarístico de Jesus
Professor de Teologia no Instituto Dom João Rezende Costa