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Homilia, questão litúrgica

Todos os nossos encontros litúrgicos, tais como celebrações dos sacramentos, celebrações dominicais da Palavra, Liturgia das Horas ou Ofício Divino, bênçãos ou exéquias comportam um elemento fundamental: a homilia. Ela favorece a participação plena dos fiéis, desejada pelo Concílio Vaticano II e expressa na Constituição Sacrosanctum Concilium para a Sagrada Liturgia, números 14 a 19.

 

Nutrindo a fé da comunidade, aprofunda a espiritualidade e o seguimento de Jesus, introduz a assembleia no sentido teológico e espiritual dos ritos celebrados. Também motiva à missão, tem importante perspectiva catequética e deve ser fecunda em apelos à conversão.  Tudo isso torna a homilia fator decisivo para a qualidade das celebrações em nossas comunidades. Sem ela as celebrações seriam estéreis, sem vida e gosto, alijadas da necessária atualização da Palavra no horizonte da celebração e da vida.

Partimos do princípio de que a homilia não é um simples adendo litúrgico, marcado pelo espontaneísmo, voluntarismo e improvisação. Ela requer oração, preparo e estudo.  Na homilia, Deus mesmo fala à comunidade por meio de seus ministros. A homilia é Palavra de Deus meditada no contexto celebrativo. Ela anuncia a salvação aos ouvidos, ao coração e à vida dos fiéis (cf. Lc 4,21; 24,27.32).
 

A homilia é Palavra de Deus meditada no contexto celebrativo. Ela anuncia a salvação aos ouvidos, ao coração e à vida dos fiéis

Diante de sua natureza e seu valor, a homilia requer dedicação, método, esforço e conteúdo. Para alguém ser apreciado como bom homiliasta, não é suficiente ter conhecimentos bíblicos e saber discorrer de modo acadêmico e científico sobre as leituras proclamadas. A homilia não é aula de teologia bíblica. Por outro lado, não basta que proponha uma experiência qualquer de Deus, como se qualquer tema religioso valesse… Muito menos basta oferecer elementos doutrinais e ou magisteriais – homilia não é catequese, nem sermão.

 

Tal constatação, é claro, não a exime de conter algum elemento exegético científico, espiritual, doutrinal e catequético. Mas não são esses elementos que determinam sua natureza. Essencialmente litúrgica e celebrativa, a homilia exige linguagem própria. Requer atenção aos textos bíblicos e eucológicos (orações), aos ritos e símbolos, aos acontecimentos comunitários e sociais.  Pede especial consideração ao evento da salvação celebrado e à experiência pessoal e comunitária de Deus a partir da liturgia.

A homilia também não deve ser exaustiva nem precisa ter a preocupação de esgotar nenhum tema. Não é “lugar” exclusivo da comunicação de Deus para com o seu povo. Muito já é dito por meio das leituras, dos ritos e símbolos, das orações, antífonas e prefácios, das monições, dos cantos e preces. A homilia é humilde em seu serviço de apontar o mistério, tem muitas facetas e se faz ouvir até no silêncio.

O homiliasta, ministro que serve em pratos fundos e vistosos a verdade da fé eclesial aos fiéis, tem uma nobre e importantíssima missão. Urge que prepare com humildade e empenho. É fundamental que também a Igreja prepare homens e mulheres para essa tarefa tão importante, a fim de que nossas celebrações sejam, a partir da homilia, impregnadas da Palavra que salva e liberta.

A presente série de artigos visa colaborar nesse aprofundamento, ajudar a abrir os olhos diante de realidades esquecidas, ou desconsideradas, fortalecer aquilo que já se realiza de bom e ajudar a descartar elementos, atitudes e coisas que não ajudam.


Exercício de observação:

Como são as homilias da comunidade onde participo? Elas partem dos textos bíblicos? Consideram os elementos litúrgicos? Tocam a realidade que vivemos? Nutrem a nossa experiência de fé? Fomentam a missão e o discipulado dos participantes?
 

Pe Danilo César
Liturgista