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Na Igreja, a profecia pouco tem a ver com previsão do futuro e muito tem a ver com a esperança que se anuncia. Embora não seja um elemento constitutivo da homilia, a profecia é uma característica que se manifesta na pregação do homiliasta e que se deve almejar. Os fiéis buscam palavras de esperança na pregação. Palavras que lhes deem alento, vontade de viver, razões para prosseguir. A liturgia é lugar privilegiado de se cultivar a esperança cristã, uma esperança que não decepciona e nos move na direção do Reinado de Deus.

 

Exemplo claro de profecia pode ser dado pelas homilias realizadas na celebração do matrimônio. Num mundo marcado pelo individualismo que cultiva a solidão, relacionamentos estéreis e funcionais, marcados por interesses egoístas e incapazes de encontros profundos, a homilia pode ser boa ocasião de se fazer profecia. Ela anuncia que Deus nos ama com amor esponsal. Diz que o amor entre o homem e a mulher é capaz de exprimir o amor de Deus. Demonstra que na sociedade do casal se esconde embrionariamente aquilo que a sociedade humana deseja e anseia: segurança, companhia, paz, aceitação e reconhecimento mútuo, cuidado e entrega livre e pessoal pela vida do outro no convívio e na dedicação diária, consagração existencial no amor. O matrimônio é gerador de vida nova pelos filhos que o casal dá ao mundo e pelo lar aberto aos pobres. Por consequência, a profecia que surge na liturgia do matrimônio, explicitada na homilia, acaba denunciando esquemas e engrenagens de distanciamento e separação, de solidão e abandono, de satisfação egoísta e indiferença frente aos irmãos. Os ouvintes de tal profecia haverão de valorizar o que fazem ao se casar, haverão de desejar o matrimônio e descobrirão sua vocação para o amor, haverão de se alegrar com os que ensejam tal caminho.

 

Igualmente a homilia no Batismo deve ser profética. Deve anunciar que a vida humana desde a sua mais tenra existência reclama a graça da comunhão com Deus. O Batismo como rito iniciático introduz o batizando na vida dos crentes no Evangelho. Mas não proclama um privilégio salvífico ou uma exclusividade proselitista. Tem mais a ver com a universalidade da salvação que desponta no seio da humanidade através dos que aderiram a Cristo. Esse nos fazem vislumbrar os últimos, que no Reino serão os primeiros, os quais serão com todos e com tudo, atraídos a Cristo (cf. Jo 12,32). Ser batizado é elevar aquilo que humanamente é mais belo à estatura de Cristo, o humano verdadeiro, o Novo Adão. É revestir-se de Cristo, despojando-nos do que é velho e ultrapassado pelos filhos de Deus: o ódio, o egoísmo, a ganância, a intolerância, a indiferença… Quanta profecia pode brotar de uma homilia no batismo. Também ela denuncia que existe um modo de viver nesse mundo que não se harmoniza com a vida que nos foi confiada. As coisas do velho Adão que resiste em nós na forma do pecado e da maldade. A homilia põe em relevo todas essas coisas, apontando para o futuro que na fé já se faz presente.

 

Exercício de observação:

As homilias suscitam a esperança nos ouvintes?