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Hoje é Natal: na liturgia o Verbo se faz carne

 

O caráter sacramental da liturgia cristã transforma os participantes das celebrações em contemporâneos do evento celebrado. Pelos sinais sacramentais, aquilo que se narra do mistério de Cristo alcança o “hoje” da história. Isso acontece por meio dos ritos, símbolos e preces da Igreja. Eles corporificam aquilo que a fé da Igreja proclama. A liturgia, em seu aspecto simbólico – a palavra símbolo quer dizer “colocar junto” – trata de unir duas partes fundamentais: o fiel com o evento salvífico, e o faz rompendo a barreira temporal, pois se ampara na própria dinâmica memorial do sacramento que, por sua vez, conta com a ação do Espírito Santo.

Daí a sua sacramentalidade: o evento salvífico que não mais se acessa de modo sensível passa a ser mediado pelos sinais que lhe servem de imagem. Ninguém mais vê Jesus na manjedoura, nem escuta os anjos cantando “glória a Deus”, nem se delicia com o incenso trazido pelos reis. O presépio até oferece visualizar a cena, contudo, isso não passa de uma terna lembrança… Mas significado profundo do Natal, isto é, a salvação que esse evento nos traz está acessível a nós sacramentalmente pela liturgia. Os sinais comunicam esse importante significado para a Igreja hoje.

 

Ao assumir a carne (encarnar-se), Deus torna divinos aqueles com os quais se irmana. Deus em sua majestade e onipotência não hesita assumir a forma do Servo, do pequeno, do humilde, de um bebê

Mas que evento é? Qual é a salvação que Deus nos propõe no mistério desta tão importante celebração? A resposta deve ser iniciada por uma clássica pergunta da teologia cristã: “Cur Deus homo” (Por que Deus se fez homem?). Deus se humanizou para salvar o homem, é certo. Mas como Deus salva o homem? A partir da própria humanidade, a partir de dentro, em extrema solidariedade com os seres humanos. Ao assumir a carne (encarnar-se), Deus torna divinos aqueles com os quais se irmana. Deus em sua majestade e onipotência não hesita assumir a forma do Servo, do pequeno, do humilde, de um bebê. Ele se humaniza. Esse é o sentido, esse é o mistério! Sagrado comércio aconteceu: enquanto Deus se rebaixou, a humanidade se divinizou com o evento do Natal. Deus mostrou o valor do ser humano ao se fazer semelhante aos homens. Que admirável acontecimento é esse que nos faz olhar com outros olhos a vida humana: Deus quis ser humano! Até Deus quis viver a vida dos seres humanos. Algo de especial há de ter esses que foram criados a sua imagem e semelhança! Isso torna a mensagem do Natal muito otimista, frente a tudo o que nos propõem os noticiários e tudo o que veiculam…

Ao bom observador não escapará a insistência da palavra “hoje” na liturgia do Natal. Esse evento salvífico não é um acontecimento que fica encerrado no passado e que torna mais saudosa e idílica a nossa visão do presépio… É um acontecimento para “hoje” que faz contemplar o presépio com a consciência de que a fragilidade humana foi assumida por Deus e com a certeza de que os nossos presépios (nossas vidas) escondem a manjedoura com o menino. Se é verdade como afirmaram os antigos que Deus deixou a sementes do Verbo em cada cultura, mais verdadeiro é reconhecer que esse mesmo Verbo habita em cada pessoa humana e com ela se identifica.

Deus se misturou às nossas coisas e não há nada de humano que lhe seja indiferente. Na Celebração Eucarística haveremos, portanto, de nos reportar a Belém, pois para lá nos conduzem os serviços ministeriais, o altar e o ambão, os dons consagrados, a Palavra proclamada, a música própria para a liturgia, cada irmão e irmã que se congrega no amor de Cristo. Cada comunidade, capela, igreja ou basílica, cada lar se faz casa do pão (Belém), pequena choupana para abrigar o Filho de Deus. Cada abraço da paz se faz manjedoura, cada canto se faz coro de anjos e cada família acolhe o menino, como Maria e José o fizeram. O nascimento de Jesus que há dois mil anos ocorreu prolonga- se na vida atual dos fiéis.  É para “hoje” o Natal de Jesus.

Pe. Danilo César
Liturgista