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Gestos e posições do corpo na missa

As instruções do Missal sobre os gestos e as posições do corpo na Missa afirmam que eles devem se harmonizar com o espírito da liturgia romana – decoro e nobre simplicidade – e valem tanto para os ministros ordenados e leigos, quanto para os fiéis (IGMR 42).

 

O decoro nos remete à beleza e à respeitosa atitude que requer uma ação sagrada. A nobre simplicidade aponta para uma característica particular do rito romano, enquanto rito sóbrio, sem exageros ou floreios. Tudo para revelar e enaltecer o mais importante, o mistério de Cristo. Contudo, este precioso artigo da Instrução é pouco observado e parece ser negligenciado, até mesmo contrariado por outros artigos do mesmo documento, o que trataremos de demonstrar aqui, nesta série de artigos.

 

Os gestos e as posições revelam a significação dos ritos e colaboram com a participação dos fiéis nos mesmos. Quando desconectados do sentido do rito, eles não facilitam a participação. Tornam o rito confuso, opaco e sem sentido. O mistério fica obscurecido por posturas e por um sistema gestual que aponta para outros interesses, ou modismos. Não é, portanto, verdade que a dimensão gestual ou a postura dos participantes seja uma questão menor e sem importância. Liturgia é questão de corpo. As posturas e a gestualidade são uma linguagem poderosa que exprime coisas profundas.

 

Quando gestualmente uma comunidade “diz” algo com unanimidade, o que é dito tem o poder de mover as pessoas

O racionalismo da mentalidade atual que olha para a liturgia como “adorno sem importância”, “coreografia sem sentido”, “embalagem do mistério” não consegue reconhecer o seu valor. “Que mal há nisso?”, perguntam alguns. “Besteira!”, dizem outros. São alguns comentários que ilustram tal atitude. Doutra parte, o gestual parece ser reconhecido em sua força e importância, porém submetido à concepções celebrativas e eclesiais que parecem retroceder no tempo, manifestando uma curiosa nostalgia por coisas não experimentadas. Aqui, a argumentação é o apelo à autoridade: o Papa disse isso, o Papa faz assim, assim acontece em Roma… Esquecem-se esses, ou até ignoram, que a liturgia papal tem suas diferenças.

 

A Instrução, porém, reconhece o valor dos gestos e das posições do corpo e afirma a sua vinculação com o sentido dos ritos. Isto, evidentemente, comporta discussões, pois um rito é uma realidade do âmbito dos sinais. Tal como os símbolos, eles possuem caráter polissêmico, isto é, admitem variadas significações. Mesmo no âmbito da liturgia isto é possível, pela própria riqueza da fé. Mas existem também os equívocos. Cumpre então, no caso de “mal entendidos”, esclarecer a gênese de determinado rito para que não aconteça uma espécie de “esquizofrenia litúrgica”, quando o gesto ou a posição do corpo não corresponde ao seu sentido.


Por fim, o artigo reza que os gestos ou posições do corpo exigem a unidade da comunidade que celebra, pois eles comunicam algo. Quando gestualmente uma comunidade “diz” algo com unanimidade, o que é dito tem o poder de mover as pessoas. Contudo, a mensagem do rito fica enfraquecida quando tal unidade não é alcançada, pois dentro da mesma comunidade um grupo faz de uma maneira e outro grupo faz de outra. Além de supor uma catequese forte, faz supor também uma dose de obediência… Ainda assim, embora tenha caráter normativo, a Instrução tem um tom mais propositivo que impositivo. Há de se preferir sempre o caminho da liberdade.

 

Pe Danilo César
Liturgista