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Espiritualidade litúrgica de Pentecostes

O Espírito Santo não se domestica

A liturgia de Pentecostes conclui o tempo pascal quando evocamos a efusão do Espírito Santo sobre a Igreja. Deus cumpre sua promessa enviando o sopro vivificador sobre a Igreja atemorizada, fechada em si mesma. Infelizmente, somos ainda herdeiros deste temor e desta timidez. Quantas vezes, constrangidos pelas nossas contradições,  e machucados pelas feridas que fustigam o Corpo de Cristo, andamos de cabeça baixa, desanimados. Faltam verdade e diálogo em nossas ações, que se pretendem evangelizadoras. Nesse caos, derrama-se em profusão o Espírito Santo de Deus com seus dons rejuvenescedores. Eles vêm em socorro de nossa débil humanidade e harmonizam as forças que gastamos inutilmente em brigas e disputas por cargos e poder. O Espírito Santo deixa-nos simples e descomplicados quando, abertos ao amor misericordioso de Deus, respondemos positivamente a nossa vocação à unidade.

O tempo pascal, arrematado em Pentecostes, sempre é tempo do Espírito e deve ser celebrado com uma só unidade: morte, ressurreição, ascensão e vinda do Espírito Santo, conforme afirma o liturgista Matias Augé. Neste horizonte, Pentecostes não é apenas “festa do Espírito Santo”, mas a celebração da plenitude e conclusão da Páscoa, conforme rezamos na oração do dia da missa da vigília: “Deus eterno e todo-poderoso, quisestes que o mistério pascal se completasse durante cinquenta dias, até a vinda do Espírito Santo…”. Este espírito pascal prolonga-se no ano litúrgico. Pentecostes não é apenas um dia.
 

A espiritualidade litúrgica de Pentecostes nos capacita a ser livres para amar e evangelizar, atentos aos sinais dos tempos.

O Espírito foi dado e continua sendo derramado sobre a assembleia reunida em oração. No domingo da ressurreição, Jesus soprou seu Espírito sobre os discípulos e, no dia da ascensão, pediu aos discípulos que não se afastassem de Jerusalém, mas aguardassem aí a promessa do Pai. Isso nos leva a entender que Pentecostes não foi o pouso do Espírito Santo sobre a Igreja no passado.

Pedimos na Coleta da missa do dia: “… derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo e realizai, agora, no coração dos fiéis, as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”. O Espírito não foi dado apenas uma vez. Ele é infinito, ilimitado, e renova a nossa face, nossa comunidade e toda a face da terra. Instaura em nós a inquietação, a busca de novos caminhos e nos afasta da tentação do retrocesso e do comodismo.

As maravilhas operadas no início da pregação do Evangelho se efetuaram pelo destemor dos discípulos. Movidos pela fé e pela docilidade para com o Espírito, realizaram proezas impensáveis na vida de homens tão fracos e limitados. E, ainda hoje, impelidos pelo Espírito Santo que sopra onde quer, discípulos e discípulas do Ressuscitado não sossegam em seu afã de anunciar a novidade perene do Evangelho: a eterna juventude dos filhos e filhas de Deus.
 
O Papa Francisco, no dia 16 de abril de 2013, em sua homilia na capela da Casa Santa Marta, advertiu: “O Espírito Santo não se domestica!”. Na ocasião, recordou o Papa João XXIII, que graças à sua obediência ao Espírito, convocou e inaugurou o Concílio Vaticano II, cujos 50 anos de abertura estamos celebrando.  O Papa Francisco aludiu – com a doçura que o caracteriza, àqueles que desejam domesticar o Espírito Santo como “as vozes que gostariam de voltar para trás”.

A espiritualidade litúrgica de Pentecostes nos capacita a ser livres para amar e evangelizar, atentos aos sinais dos tempos. Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo sobre o qual não temos nenhuma posse ou controle, pois ele sopra onde quer. E que todas as nações dispersas pela terra, na multiplicidade de suas línguas, se unam no louvor da Trindade, como rezamos na oração do dia da missa vespertina, na vigília de Pentecostes. 

Pe. Antonio Damásio Rêgo Filho
Pároco da paróquia Santa Teresinha
do Menino Jesus da Santa Face