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É fim de ano mais uma vez. Tudo que começa tem um fim, é a transitoriedade temporal que tece o nosso ser nesse mundo. Inevitavelmente 2014 está terminando. De fato, por um lado é bom que tudo tenha um desfecho, caso contrário a rotina nos dominaria com seu tédio inato; por outro, o aproximar do fim deixa sempre um gosto de nostalgia, de coisas inacabadas, a consciência de que falta algo. O ser humano se cansaria das coisas do mundo, se não fosse a abertura espiritual que o anima. Por isso, para vivenciar as festas de fim de ano é preciso pôr espírito. Mas o fim de ano tem uma magia natural e benfazeja: que bom! Hora de férias, de rever amigos e familiares, hora do merecido descanso. Ah! Tem Natal e seus encantos. As festas de fim de ano nos lançam na utopia existencial que ajuda a viver. As festas desse período transfiguram o que não deu certo durante o ano, despertam a esperança de ir além, de ser melhor, de crescer, de melhorar a situação financeira, de reaver a saúde desgastada, enfim, de transcender.

 

Mas há o risco de se viver na mera ilusão e encanto, sobretudo se ficamos e nos contentamos com a superficialidade da vida. Sem nenhum moralismo. Diante da sociedade de bem estar, o mero consumismo é incapaz de eliminar a tristeza profunda que, por vezes, carregamos. Segundo o Papa Francisco, “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada”.

 

Festejar sim, mas com espírito! É preciso abrir-se para além da magia da festa, do encontro, do bom vinho, da ceia, dos presentes, rumo ao Espírito  Isso significa transcender e transfigurar o aqui e o agora de nossas vidas

Festejar sim, mas com espírito! É preciso abrir-se para além da magia da festa, do encontro, do bom vinho, da ceia, dos presentes, rumo ao Espírito. Isso significa transcender e transfigurar o aqui e o agora de nossas vidas. O mundo não é só aqui. É pela espiritualidade que se descortina o horizonte de sentido da vida. A vivência espiritual nos ensina a leveza de ser, a experimentar a existência não mais como um peso. Daí, descobrimos que para além da utopia das festas, existe a profundidade da vida espiritual. Somente quem trilha a via espiritual é capaz de perceber o sentido do Natal e do Fim de Ano.

É preciso refletir que é possível e necessário vivenciar as festas de fim de ano com espírito. Sem a vida espiritual, nossa alegria é muito transitória e deixa, quase sempre, um rastro de dor. Por isso, São Paulo nos convida: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Vivenciar as festas com espírito expressa o desejo de ir além da ceia e da troca de presentes, sendo cada um aquele presente único de Deus ao mundo. Festas com espírito que dizer: reflexão, meditação, reencontro e perdão. Festa com espírito exprime também oração, amor que recomeça cada dia, paz que me convida a cada novo amanhecer, mãos estendidas aos pobres. Não apenas numa espécie de altruísmo anual, mas sempre.

Festa com espírito é saída do próprio eu para acolher o Menino Deus que se dá a conhecer nos pobres e abandonados. Festa com espírito é êxodo e nos faz fugir das “ceias fartas e corações vazios”. Por fim, a espiritualidade da festa nos traz esperança, enche-nos de afeto, amansa nossas feras interiores e nos convida a refazer os laços, a sermos ponte, a superar toda divisão. Festa com espírito é solidariedade e comunhão. Feliz natal e um Abençoado 2015.

 

Padre Márcio Paiva
Vigário Paroquial da PAróquia Nossa Senhora de Nazaré