Precisamos de outras medidas de felicidade … realidades novas exigem certezas novas

 

Se, quando nossa civilização desaparecer, os únicos resquícios arqueológicos de nossa existência forem os nossos álbuns de fotografias, os arqueólogos do futuro verão somente rostos sorridentes, festas e comemorações. A conclusão inevitável será que nossa civilização era composta exclusivamente por pessoas felizes. Existiria um elemento de verdade nesta conclusão equivocada: a busca da felicidade é importante na nossa cultura.

A busca da felicidade é tão importante que a declaração de independência dos EUA considera óbvio que todos os homens têm direitos fundamentais e inalienáveis ao seu alcance.

Apesar de ser muito especifico em relação aos obstáculos à busca da felicidade pelo Homem daquela época, o documento não define o que é felicidade. Ele apenas proclama o direito do ser humano de persegui-la.

Já os economistas não são tão vagos. Para eles, a vida é a busca de satisfação, que atingimos pelo consumo. Parece que para os economistas felicidade e consumo são (quase) sinônimos. Portanto, busca da felicidade, na economia, é procurar aumentar o consumo de bens e serviços. Consumir é ser feliz.
 

As limitações da Terra precisam ser incorporadas à teoria econômica e à maneira como vivemos; a felicidade, através do aumento ilimitado do consumo, não mais é possível como objetivo

Talvez por isso a principal medida do nosso avanço seja a quantidade de bens e serviços que produzimos a cada ano. Estamos sempre focados na velocidade do crescimento do PIB. Consideramos desenvolvidos aqueles países onde seus habitantes podem consumir mais. 

 

Na nossa teoria econômica, não existiriam limites físicos para a expansão do consumo pela humanidade. Ou melhor, os limites físicos, se existirem, são chamados de externalidades: não fazem parte do modelo econômico. Os limites dos recursos naturais da Terra estão entre essas externalidades.

Na medida em que avançamos século XXI adentro, fica cada vez mais claro que os recursos limitados da Terra e a nossa maneira de ver a economia estão em clara contradição. Essa externalidade não é mais exceção, mas sim parte da regra.

As limitações da Terra precisam ser analisadas, compreendidas e incorporadas à teoria econômica e à maneira como vivemos. A felicidade, através do aumento ilimitado do consumo, não mais é possível como objetivo.

A espécie humana se orgulha de ter sobrevivido graças à sua capacidade de adaptação. Nesta era e tempo, precisamos desesperadamente dessa habilidade. Precisamos de novas teorias econômicas que expliquem melhor nossa realidade. Precisamos de outras medidas de felicidade. Realidades novas exigem certezas novas.

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)