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A realidade é impactante e nem sempre aprazível. Mesmo negada e rejeitada, ela se impõe e, teimosamente, resiste e prevalece. Cedo ou tarde, velada ou revelada, a realidade se apresenta como a real possibilidade para encontrar sentido para a vida.

Cotidianamente, nos deparamos com desafios em nível pessoal, grupal e institucional que nos empurram em direção à realidade, queiramos ou não. Pode ser uma limitação do corpo, como uma doença ou o envelhecimento por vezes cruel; pode ainda ser uma decepção ou alegria de um relacionamento; às vezes é a perda do emprego, a mudança de projetos, bem como o surgimento de novos desafios para encarar a mudança. De uma forma ou de outra, é a realidade de um momento ou de uma situação que marca presença e nos chama a rever conceitos, posturas, crenças e convicções.
 

Somos passageiros em uma viagem da qual participa muita gente, e de muitas formas; na viagem da vida, ainda que tentados a manipular e possuir pessoas e coisas, não somos donos de nada e não levamos nada

Na tradição cristã católica há um rito muito interessante que, ao longo do tempo, foi perdendo sua profundidade e significado mais genuíno. Na quarta-feira de cinzas, que marca o início de um tempo especial, a quaresma, um gesto é realizado e pode ser vivido de forma enriquecedora. O celebrante, num dado momento, coloca um pouquinho de cinzas na cabeça ou na testa dos fiéis, pedindo a cada um o esforço pela mudança de vida, pela conversão do coração.

Contudo, o grande convite está em lembrar-nos de que somos originários do barro, do pó da terra e que para ele voltaremos! Esta realidade, num primeiro momento até assusta (por isso hoje praticamente já não se usa tal frase). Porém, ela é de uma riqueza do tamanho da realidade que nos envolve. O gesto de receber as cinzas na cabeça tem muitos significados, mas especialmente tem a ver com arrependimento dos erros, desejo de conversão, penitência pelos deslizes, etc.
 

 

O gesto das cinzas nos remete à condição humana, frágil e carente de cuidado. Por isso, e saudável tomar consciência de que somos seres frágeis, limitados no tempo e no espaço, e dependentes uns dos outros (= interdependentes).
 

Somos passageiros em uma viagem da qual participa muita gente, e de muitas formas. Na viagem da vida, ainda que tentados a manipular e possuir pessoas e coisas, não somos donos de nada e não levamos nada. A avidez por possuir e dominar se esvai ante o fim inevitável a que todos seremos submetidos. Dramaticamente, essa é a sabedoria embutida na criação: todos viemos do pó da terra e nele e para ele nos tornaremos!

Mais do que nos aterrorizarmos por tal realidade da existência, cabe-nos descobrir os caminhos para lidar com a grandeza e a beleza desse mistério. O que é frágil precisa de atenção, carinho, admiração, sensibilidade e afeto. O que é limitado necessita espaço e possibilidade para expandir-se. O que é carente requer companhia, doação, gratuidade e presença. O que é fugaz precisa valer-se do tempo que lhe cabe para ser apreciado, validado e eternizado. Tal realidade nos empurra em direção ao princípio do cuidado, que supõe atenção, abnegação, zelo. É um capricho da natureza colocar em nossas mãos a possibilidade de cuidar, como forma de enaltecer a dignidade de todas as coisas.
 


Portanto, lembrar-nos de que somos pó é um convite a cultivar a humildade e a simplicidade, como condição para a felicidade.

 

Na prática, é abraçar a própria história, bela e/ou trágica, alegre e/ou triste, farta e/ou escassa; é acolher o mistério escondido e revelado de cada gesto, com o coração aberto e cheios de reverência ante acontecimentos, eventos e experiências…. Que ao nos reconhecermos cinza sejamos capazes de valorizar a importância de cuidar: do mundo interior – a alma – fonte originária das pequenas e grandes ações; dos relacionamentos humanos, com um pouco mais de gentileza e interesse pelo outro, não perdendo de vista que o outro também é pó; e da casa comum – rica em diversidade, colorida, dinâmica, pródiga – onde a vida seja possível para todos, para sempre.

Reconhecermo-nos pó da terra nos aproxima da origem – o seio divino que nos plasmou e gerou com eterno cuidado e amor! Quem sabe, isso nos torna mais humanos, mais agradecidos, mais desapegados, mais acolhedores…

 

Vanderlei Soela
Pedagogo e Psicólogo,mestre em Aconselhamento
PastoralProfessor nas áreas de Gestão de Pessoas
Ética, Liderança e Sustentabilidade.