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Muitos falam que viver a juventude é um momento de crises, transição. Verdade que toda fase da vida tem suas crises. Estamos sempre em transição, em travessia. Mas três palavras correspondem bem o que é mais acentuado na fase jovem: vulnerabilidade, potencialidade e intensidade. 
 
Sentem-se vulneráveis, frágeis, pois, ao deixar a infância com sua tranquilidade e dependência, surgem instabilidades que só a maturidade pode apaziguar. E o tempo é grande inimigo. Pois há uma pressa que se não bem trabalhada elabora crises: espiritual, de valores, de identidade, de situar-se. Surgem vazios e as ofertas para aplacá-los : aventuras, riscos à vida, isolamento, drogas, farras. 
 
Passar por uma juventude saudável, que leve à maturidade está intimamente ligado à construção de relações com outras pessoas adultas ou mesmo jovens da mesma idade, capazes de serem referências saudáveis e estáveis. Podem ser amigos ou familiares dotados de valores que serão desejados e seguidos. Deste modo, é fundamental a atenção e o acompanhamento pessoal fraterno dos jovens pelo catequista.
 
Cada idade tem sua possibilidade, seu desafio. Mas na juventude tudo isso
toma tons mais
intensos.
Já a potencialidade tem dois aspectos a serem analisados: O primeiro deles é que o jovem tem todo o mundo pela frente e grandes possibilidades. Possui motivações esperançosas e quer fazer o mundo melhor, mesmo não sabendo como. Mas depois deste ponto surge a tensão da escolha. O futuro pode ou deve ser decidido nesta fase. Há exigências de ordem pessoal familiar ou social que tornam este momento da vida demasiado pesado para viver. Há uma crise de independência. É comum a fuga das responsabilidades que batem à porta. 
 
O curioso é que a potencialidade tem sua raiz exatamente no terreno criado pela falta de maturidade. Clarice Lispector brindou-nos com a clareza destas palavras: “Perder-se também é caminho”. Adultecer é buscar terreno sólido para pousar. O jovem ainda não aterrissou e por isso exige confiança e paciência para desenvolver suas potencialidades. Cabe à Pastoral apoiar e permitir responsabilidades na comunidade.
 
Sabemos que cada idade tem seu dom, sua possibilidade, seu desafio, sua dor. Mas na juventude tudo isso toma tons mais intensos. Na infância ou mesmo na adolescência,  a família e responsáveis conduzem. As experiências são oferecidas.
 
 
Compreender as
vulnerabilidades e
ajudar nas potencialidades
pode ser o caminho
para a inserção pastoral
do jovem na Igreja.
Já na juventude, a intensidade está nas escolhas pessoais, nas experiências, nas aventuras, nas possibilidades que não foram ofertadas e que agora despontam em êxtase. Paixões, ídolos, referências, comportamentos. Tudo muda radicalmente ou é sentido, percebido, intensamente. Não que na fase adulta não se viva intensamente as escolhas pessoais, mas as responsabilidades, o discernimento da maturidade, a rotina das escolhas, os condicionamentos levam a uma suave apatia. 
 
Compreender as vulnerabilidades, ajudar nas potencialidades e ter paciência para a intensidade pode ser caminho oportuno para a inserção pastoral do jovem na Igreja. A catequese não pode desconsiderar estas características. Elas moldam a linguagem do que se comunica e se faz compreender. Mais que isso: compreender que se trata de juventudes, isso mesmo, no plural. São diversos contextos, contornos e interpelações que se colocam diante de nós. O olhar de quem acompanha o jovem deve possuir certa maturidade humana e abertura profunda. Senão, haveremos de ouvir a triste lamúria que não sabemos comunicar com os jovens. 
 
Ricardo Diniz de Oliveira
 Membro da comissão Arquidiocesana de Catequese