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Ética: entre o conhecimento e a ação

Agir sem conhecer bem e conhecer sem agir: dilema que atravessa a cultura na atualidade. Afetam o nível do conhecimento os interesses ideológicos que o obscurecem. E o agir se contamina com a crescente relativização dos valores.

A filosofia clássica, que nos moldou o cotidiano, fez corte artificial e equivocado entre teoria e prática. Chegou-se mesmo à irônica formulação popular de que “temos muita teoria e pouco prática” ou como o Ministro da Educação Aloizio Mercadante pontificou: “Não dá para formar um professor só lendo Piaget.”
 

Na base de tais afirmações, esconde equivocada compreensão de teoria e, por conseguinte, da sua relação com a prática. Teoria no sentido profundo, fazendo jus à etimologia grega, significa ver, observar, examinar uma realidade com conhecimentos para torná-la clara, transparente à inteligência. A sua função principal consiste em fazer inteligível o real, o que existe diante de nós. E quando se relaciona com a prática, ela desvenda com os recursos das ciências naturais, filosóficas e teológicas o significado, o alcance, a natureza, as motivações, as implicações existenciais da ação humana em questão.

Não nos sobra teoria e nos falta prática. Acontece o inverso. Agimos com frequência sem clareza do conteúdo, dos motivos, dos valores, dos elementos inseridos na ação por falta de teoria. E interfere para impedir-nos de ter clareza sobre as práticas a enchente de propaganda, de marketing, de engodos do mercado. Resumiria na palavra “ideologia” no sentido de interesses escondidos que nos movem a agir por falta de clareza teórica a seu respeito.

 

Só existe ética humana no duplo nível da teoria e prática em mútua relação. Enquanto teoria, ela  pretende ser luz para o agir humano que se faz ético quando a  segue e a concretiza.

A ética entra precisamente em tal jogo. Pretende trazer elementos teóricos para iluminar-nos o agir. Recolhe na filosofia reflexões sobre os valores, sobre a natureza humana. Mais. Ausculta as tradições culturais. No caso do Ocidente, interferem no pensar cultural e se mesclam com a ética conhecimentos, valores que brotaram da pregação cristã. Muitos deles já fazem parte do próprio percurso da razão ocidental a ponto de considerá-los parte da ética humana.

No momento atual, em que nos entregamos a agitado ativismo, não carecemos de prática. Toca-nos desenvolver diante dela tríplice atitude que os jovens da Ação Católica tão concisamente definiram com os três verbos: ver, julgar e agir. Ver implica analisar as práticas correntes. Ao fazê-lo, desmascaramos os interesses subterrâneos. Na cultura capitalista, o intruso principal chama-se mercado, lucro, dinheiro. Sob nomes imponentes como eficiência, competência, gestão inteligente, técnica, tecnologia moderna e outros, as práticas se regem pela produtividade lucrativa, deixando de lado valores como generosidade, simplicidade, gratuidade, serviço aos outros, bem comum. A ética lança juízo crítico sobre tais práticas, ponderando os aspectos positivos e negativos, para então decidir por ações que correspondam melhor aos valores escolhidos.  Só existe ética humana no duplo nível da teoria e prática em mútua relação. Enquanto teoria, ela  pretende ser luz para o agir humano que se faz ético quando a  segue e a concretiza.
 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)