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Espiritualidade da Quaresma

O significado da Quaresma

 

Quaresma: quarenta dias. Quaresma é símbolo de penitência, jejum, oração libertação. Primeiro Israel, o povo de Deus, fez um caminho de salvação guiado por Moisés. O povo era escravo no Egito e Deus suscitou um líder para libertá-lo e conduzi-lo à terra prometida, onde corre “leite e mel”, ou seja, uma terra abençoada na qual Deus reinaria sobre todos, onde seria o “seu Deus”. Antes de chegar a essa terra, o povo precisou passar quarenta anos no deserto para escutar a voz de Deus, conhecer sua lei e aprender a praticá-la. Um tempo de prova e de preparação para uma experiência única de Deus.

 

Jesus continua o caminho de Moisés no deserto e se torna o guia e o libertador de todos os homens e mulheres. Com seu jejum e sua oração, quando vence a tentação no deserto, manifesta a sua liberdade e seu senhorio sobre as coisas. Diferentemente de Adão, que não soube acolher o projeto de Deus, mas se fechou no seu orgulho, Jesus acolhe o Reino de quem é mediador e se torna Senhor de todos e de tudo por sua ressurreição dos mortos. A Igreja celebra os mistérios do êxodo e do jejum de Cristo durante o tempo litúrgico da Quaresma, buscando uma renovação mais profunda, sustentada pelo amor apaixonado de Deus pelo ser humano que se manifesta no seu Filho Jesus Cristo. Ela faz penitência em busca de uma fidelidade maior a seu Senhor. Convida cada cristão a uma mudança de vida, em vista de uma mais radical adesão a Jesus.
 
Quaresma: tempo de crescimento espiritual

 

Quaresma é tempo de investir na conversão e continuar a busca do crescimento em Cristo. Para isto se torna indispensável uma atenção constante sobre si mesmo, movida pelo amor a Deus, para aproveitar todas as oportunidades de fazer o bem que a vida nos oferece. A busca do bem marca a existência cristã em todos os seus aspectos, mas a Quaresma chama a atenção para a necessidade de não só fazer o bem, mas também combater o mal.

 

Viver a Quaresma no espírito de fé é, pois, atuar de diversos modos a opção por Deus, que brota da conversão sincera do coração

O bem exige o combate ao mal. Não só o mal do mundo, mas também aquele que existe dentro de nós e que se traduz em atitudes egoístas que nos fazem esquecer o outro e suas necessidades e pensar só em nós mesmos, como se fôssemos o centro do universo.  Neste ponto Santo Afonso nos ilumina: “Alguns fazem as pazes com seus próprios defeitos e daqui nasce a sua ruína, sobretudo quanto estes defeitos são o apego a alguma paixão, à própria estima, ao desejo de aparecer, de acumular riquezas, ao rancor para com o próximo”. Santo Afonso é taxativo ao afirmar que “vivem em perigo aqueles que se abandonam à mediocridade”. Santo Afonso sabe que os medíocres logo se tornam decadentes, ou seja, desistem da busca de Deus para viver somente para si mesmos. O tema da vigilância se mostra central no tempo da Quaresma. É preciso “vigiar e orar”, como aconselhava Jesus, para não “cair em tentação”.
   
Como viver a Quaresma?

 

Para viver bem a Quaresma, investindo no conhecimento profundo de Cristo, é preciso, pois, uma decisão firme e corajosa de se entregar a Ele e de empregar os meios para atuar a própria decisão. Quais seriam esses meios? A Igreja nos indica vários caminhos para crescer na conversão: os sacramentos da eucaristia e da reconciliação, a meditação nas verdades fundamentais da fé, a oração pessoal e comunitária, a caridade. O mais importante, no entanto, é o desejo de dar-se a Deus que deve traduzir-se na caridade para com o próximo.

 

Quem se decide a fazer alguma coisa por Deus, nada tem a temer. É só pôr mãos a obra que Deus dará a sua graça. Viver a Quaresma no espírito de fé é, pois, atuar de diversos modos a opção por Deus, que brota da conversão sincera do coração. Jejum, oração, esmola não têm sentido em si mesmos, são apenas “meios” que ajudam a absolutizar o projeto de Jesus na própria vida. Assim como Jesus, é preciso acolher a vontade do Pai, o que supõe renúncia a tudo o que nos afasta do verdadeiro amor. A Quaresma é um tempo propício para a atuação desta proposta, por meio da penitência, da oração, do jejum e das obras de caridade.

Pe. Paulo Sérgio Carrara, C.SS.R.
Professor de teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) e
no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), em BH