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Podemos dizer que Espiritualidade é o jeito como vivemos… e espiritualidade cristã seria o nosso jeito de viver inspirado pela experiência do Deus Trindade, pela revelação cristã, especialmente pelos valores do Evangelho e, de forma experiencial, pelo seguimento da pessoa de Jesus Cristo. O fato de sermos cristãos, dá uma inspiração própria ao que somos e fazemos: orienta o nosso agir, ajuda a discernir nosso sentir e ilumina as nossas decisões com valores específicos.

Espiritualidade é essencialmente experiência: experiência de Deus, feita por pessoas. Experiência pessoal de Deus, revelado em plenitude na pessoa de Jesus Cristo. Experiência de Deus feita por pessoas, situadas culturalmente. Pessoas como seres multidimensionais – e isso requer da espiritualidade que seja uma experiência integral.

Há três dimensões essenciais do ser pessoa, ou três centros dinâmicos que o constituem: a dimensão emocional, a dimensão racional e a dimensão da ação. A Espiritualidade precisa entranhar-se nestas três dimensões, para que seja experiência vital integral.

 

Olhando a pessoa como um ser em relação, a colocamos numa perspectiva de abertura ao outro e como critério de sua realização o ser-com, contrapondo-se à lógica individualista

Em diferentes épocas do pensamento, uma ou outra dimensão foi privilegiada, geralmente em detrimento das outras. A frase de Descartes “penso, logo existo” baseou, durante muito tempo, a lógica da preponderância da razão. O sentimento e a ação perderam papel de importância. Os materialistas resgataram o valor da ação como lógica de produção materialista, ao quererem afirmar “produzo, logo existo”. Continuamos desequilibrando a balança em favor de uma única dimensão.

Poderíamos talvez dizer “Nós nos relacionamos, logo existimos!”. Ser pessoa é ser relação. A dimensão relacional constitui a essência do ser pessoa, integrando sua totalidade e respeitando sua vocação profunda. Olhando a pessoa como um ser em relação, a colocamos numa perspectiva de abertura ao outro, e  como critério de sua realização o ser-com, contrapondo-se ao ser-em-si, que baseia a lógica individualista.

As quatro dimensões do relacionamento
 

Considerando a pessoa como ser relacional, poderemos caracterizar quatro dimensões essenciais do relacionamento, capazes de responder a uma visão integral do ser humano. A pessoa se relaciona em primeiro lugar consigo mesma: quem sou e de onde venho? Para onde vou? Para que vivo? Por que vivo? Quem sou eu? – são algumas questões que perpassam a existência e que cada um é chamado a encontrar respostas.

A pessoa se relaciona em segundo lugar com os outros. É a dimensão do conviver, que caracteriza a pessoa como um ser político, um ser social. As relações interpessoais são um desafio para a existência e constituem uma dimensão realizadora fundamental. Aqui, podemos abrir uma subdivisão: o relacionamento com os outros situa-se ao nível das relações interpessoais e situa-se também a um nível mais amplo, que é o das relações estruturais, das formas de organização social que a pessoa também precisa estabelecer.

 

A pessoa se relaciona também com o Transcendente, a quem chamamos Deus. É o horizonte que engloba a dimensão que vai além do sobreviver e do conviver

Em terceiro lugar, a pessoa se relaciona com o cosmos, a natureza que a circunda, todas as outras formas de vida que a rodeiam e às quais está ligada. Também no relacionamento com o cosmos se constrói o ser pessoa, numa perspectiva de realização global da vida e de interdependência das formas de vida.

A pessoa se relaciona também com o Transcendente, a quem chamamos Deus. É a dimensão do reviver, da criatividade, do sentido e das razões de viver. É o horizonte que engloba aquela dimensão que vai além do sobreviver (da satisfação das necessidades básicas) e do conviver (que responde ao relacionamento com as outras pessoas e as outras formas de vida).

 

O essencial da revelação cristã

 

A construção da pessoa se faz na medida em que estas quatro dimensões são equilibradas harmoniosamente. Podemos dizer que a maneira como a pessoa orienta estas quatro dimensões relacionais é a espiritualidade que a pessoa vive. Ou então, a espiritualidade seria aquela inspiração que anima a pessoa em cada uma destas dimensões relacionais. Poderíamos, então, dizer que espiritualidade é a maneira como me relaciono comigo, com os outros, com o cosmos e com Deus.

O específico da espiritualidade cristã é a inspiração própria que a revelação cristã coloca na vivência de cada uma destas relações. O essencial da revelação cristã não é um conjunto de valores ou de normas… mas é essencialmente uma pessoa: Jesus Cristo. O seguimento desta pessoa chamada Jesus Cristo constitui o cerne desse cristão da espiritualidade. Ora, essa experiência inspira um jeito próprio de cada pessoa se relacionar consigo mesma, com os outros – tanto ao nível das relações interpessoais como ao nível da organização social, com o cosmos e com Deus.

 

Cristão é aquele que assume um jeito próprio de se relacionar consigo, tem uma maneira específica de relacionar com os outros e acolhe a relação com Deus numa perspectiva específica

O que o seguimento de Jesus Cristo, a experiência pessoal que faço da sua pessoa, influencia na minha maneira de me relacionar comigo, com os outros, com o cosmos e com Deus? – quando respondermos a esta questão, teremos encontrado resposta para definir o que é espiritualidade! Nesta perspectiva, a espiritualidade se torna vital, experiencial, integral e integradora da totalidade do ser pessoa. Assim, a espiritualidade se identifica com o jeito de viver, com um estilo de viva, com um modo de ser – um modo de sentir, pensar e agir, um jeito de se relacionar, de tomar decisões e de trabalhar na transformação da realidade.

Cristão é aquele que, por causa de uma experiência pessoal de seguimento de Jesus Cristo, assume um jeito próprio de se relacionar consigo mesmo; tem uma maneira específica de se relacionar com os outros, quer ao nível interpessoal como ao nível da organização social; adota um estilo próprio na relação com o cosmos e acolhe a relação com Deus numa perspectiva específica.

Caracterizar como, de modo específico, a experiência cristã influencia cada uma destas quatro dimensões do ser relacional da pessoa. Essa é a tarefa do estudo da espiritualidade cristã!

 

. Domingos Cunha
Comunidade Católica Shalon