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Os significantes carregam história. Modificam-se os significados, mas conservam permanente relação com eles. Toda mudança de significante levanta-nos suspeita de que algo aconteceu no nível ideológico, dos interesses, quer positiva quer negativamente.

Em poucas décadas, assistimos a dois deslocamentos no referente ao bloco semântico ligado à missão, missionário, evangelização.

Durante muito tempo predominou o termo missão. Forjou-se a bela palavra de missionário para designar as pessoas que, em geral, abandonavam os próprios países para deslocar-se a regiões em que a Igreja não tinha quase ou nenhuma presença. Em relação com tal façanha apostólica, plasmou-se a expressão latina plantatio ecclesiae – plantação da Igreja – para designar o que os missionários faziam nas terras de missão.
 

O termo missão pede duplo olhar: a situação a que se chega e a Boa Nova que se anuncia

O termo missão remete ao verbo enviar, missus tem como significado ser enviado. Na origem primeira está o envio dos apóstolos por parte de Jesus para levarem o Evangelho a todas as partes (Mc 16,15). Depois a Igreja institucional assumiu a tarefa de prosseguir a obra de Jesus, ao mandar missionários para o mundo inteiro. O significado principal cai na ideia do envio pela Igreja para prolongar a sua presença em outras partes, levando já modelo pronto e feito a ser simplesmente implementado.

O Papa Paulo VI, no espírito do Concílio Vaticano II e do Sínodo de 1974, preferiu o termo evangelização (Exortação apostólica Evangelii nuntiandi) . Desloca-se então a ênfase semântica. Em vez de pôr no centro a ideia de envio, assumiu-se a de Evangelho, Boa Nova que, no fundo, se chama Jesus Cristo. O termo missão acentua a eclesiologia e o de evangelização, a cristologia. Traz consequências importantes na maneira de cumprir a mesma tarefa. Pede duplo olhar: a situação a que se chega e a Boa Nova que se anuncia. Em termos teológicos, implica enculturação, enquanto a missão tradicional desconhecia tal perspectiva. No passado, levava-se o todo já pronto. Agora, os nativos ouvem o Evangelho, assimilam-no e exprimem-no dentro do próprio horizonte cultural.

O termo missão voltou. Mas já não tem o mesmo sentido que tinha antes. Pois já passamos e conhecemos a semântica da evangelização. Ser missionário hoje supõe que façamos a síntese entre o acento eclesiológico do envio com o cristológico da novidade do Evangelho.
 

O missionário chega para revelar o kairós do Reino de Deus que pede conversão e acolhida da Boa Nova da salvação

Assim, o Encontro de Aparecida, que programou a Grande Missão para o Continente latino-americano, será bem interpretado. Para isso, torna-se imprescindível superarmos a fase missionária de levar o conteúdo e a forma da missão do lugar de partida, sem considerar a realidade onde a semente do Evangelho deverá germinar. Também não se chega totalmente desprevenido sem nenhum conteúdo como se o Evangelho nascesse todo aonde se aporta.

Cabe ao missionário ter a sensibilidade de perceber a novidade, exigências e condições do povo a ser evangelizado, respeitando as tradições culturais e religiosas. O Evangelho soa então como pergunta, questionamento, provocação para que os ouvintes encontrem o próprio caminho de vivê-lo segundo a tríplice proclamação de Jesus: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova” (Mc 1, 15). O missionário chega para revelar o kairós do Reino de Deus, que pede conversão e acolhida da Boa Nova da salvação.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)