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[Entrevista] O chamado vocacional ao Sacerdócio – Padre Joel Maria dos Santos

Neste dia 4 de agosto, data da Festa de São João Maria Vianney, a Igreja celebra o Dia do Padre. Confira uma entrevista especial com padre Joel Maria dos Santos, vigário episcopal para a Ação Pastoral da Arquidiocese de Belo Horizonte, sobre o chamado vocacional ao Sacerdócio.

Por que e quando decidiu ser padre?

A vocação é um chamado. Deus chama através dos fatos concretos, da vida vivida, das circunstâncias, das pessoas, dos testemunhos… Fui sentindo, desde criança, esse chamado por meio do testemunho de meus pais, do sacerdote da minha paróquia de origem, dos serviços prestados àquela comunidade, do engajamento na vida daquele povo, das experiências de retiros, dos momentos de oração, enfim, da vida com tudo o que ela compreende. O que presenciava naquela comunidade que pertencia, era repetido e vivenciado, através de brincadeiras, em minha casa com minhas irmãs, irmãos, primos… não podia imaginar que aquela brincadeira de ser padre, de viver e construir uma comunidade com meus primos, irmãos, irmãs, seria posteriormente uma realidade.

Destaco que, o testemunho daquele grande sacerdote com quem pude conviver em minha infância, foi determinante para que eu desejasse trilhar o caminho sacerdotal. Chamava-me a atenção o seu jeito de celebrar, sua espiritualidade, sua forma de se aproximar das pessoas. Então, perguntava a mim mesmo: não poderia eu também fazer esse caminho? Ser dessa forma? Claro, essa foi a motivação inicial.

Posteriormente, fui percebendo que as razões da resposta ao chamado, passaram a ter um sentido mais profundo. Na verdade, cada dia que se vive, vai-se adquirindo uma melhor compreensão acerca do ministério sacerdotal como participação no Sacerdócio de Cristo.

Naquela época, por volta dos 16 anos, a compreensão que tinha da vida e do que era ser padre condizia com o que eu dava conta de significar. Ao longo do caminho formativo, compreendendo os estudos e a prática da vida, foi acontecendo a ressignificação. As respostas ao “por que” ser padre eram, naquele momento, ainda muito limitadas, embora, já achasse que era tudo. Mas, é nesse contexto que a resposta foi dada ao chamado.

Conte-nos um pouco mais sobe o seu discernimento vocacional.

No processo do discernimento vocacional, muitas pessoas me ajudaram a interpretar os sinais vocacionais. Além da maturidade espiritual e eclesial de muitas pessoas da própria comunidade, lembro-me do processo de discernimento vocacional existente na Arquidiocese, naquele tempo, que era composto pelas assim chamadas “linhas de discernimento vocacional”, compreendendo cada etapa, dentre as muitas, que o processo exigia e que tínhamos de participar. Uma experiência de que me recordo com entusiasmo e gratidão! Éramos muitos jovens que mensalmente nos reuníamos no colégio Loyola para participar dos encontros vocacionais que congregavam várias experiências de comunidades religiosas, consagradas, padres, seminaristas, religiosos e religiosas etc. Saíamos maravilhados e realmente tocados pelo que ouvíamos, rezávamos, o que , por sua vez, gerava no coração a alegria da resposta afirmativa a um chamado vocacional.

Muitos que coordenavam estes encontros nos ajudavam, através do testemunho acerca de suas experiências vocacionais, dando-nos importantes subsídios para o discernimento. Um longo caminho foi percorrido levando-me inicialmente a buscar a Congregação do Santíssimo Redentor dos padres Redentoristas na Igreja de São José no centro de Belo Horizonte. Juntamente com eles fui dando os primeiros passos ao longo de um ano quando, no final do mesmo, foi realizado um encontro em Juiz de Fora em que era para se dar a resposta final da aceitação e início do caminho formativo junto aos Redentoristas. Ao final desse processo, tendo sido aceito, ao chegar em casa percebi que minha mãe tinha sentido duramente minha ausência, o que me levou a refletir melhor se não poderia fazer o mesmo caminho aqui em Belo Horizonte. Neste contexto, procurei o Reitor do Seminário Arquidiocesano Coração Eucarístico de Jesus (SACEJ), padre Alberto Taveira, hoje Arcebispo de Belém, que me possibilitou iniciar o caminho vocacional através dos estudos e dos permanentes momentos de encontros de discernimento juntamente com ele e toda a equipe do SACEJ, chegando, depois do Seminário menor, da Filosofia, e Teologia, a ser ordenado presbítero pela mesma Arquidiocese por Dom Serafim Fernandes de Araújo no dia 14 de Maio de 1994.

Há quanto tempo está na Basílica do Santo Cura d’Ars?

No dia 10 de agosto do ano corrente, completo quatro anos do início do Ministério Sacerdotal na Basílica de Santo Cura d’Ars. Ali cheguei transferido da Paróquia Bom Pastor (Dom Cabral). Não podia imaginar que um dia estaria nesse lugar e nessa realidade. Aliás, cada comunidade a que somos enviados, no horizonte da perspectiva missionária, sempre é necessária a abertura do coração. Preciso é saber que àquele lugar somos enviados para ali exercermos um ministério como servidores do povo de Deus. Não podemos esquecer que cada comunidade tem um rosto próprio, uma caminhada específica. Nem sempre é fácil, tanto para aquele que chega bem como aqueles que acolhem, a experiência da mudança, a abertura ao novo. Muitas das vezes os sofrimentos experimentados dizem respeito, por um lado ao apego às pessoas e coisas, ambientes e costumes, hábitos e comodidades e, por outro, a insuficiente compreensão missionária na vida da Igreja. No âmbito das relações humanas tecidas no afeto, nas amizades construídas, na alegria dos encontros, é perfeitamente compreensível as dificuldades enfrentadas quando se chega um novo pároco.

O que não podemos esquecer é justamente da dimensão missionária. Nesta perspectiva, o caminho deve ser trilhado em comunhão com toda a Igreja Universal, através do Papa Francisco que, por sua vez, é sinalizada e presentificada na Igreja arquidiocesana através de suas diretrizes e orientações pastorais, nesse momento, propostas através do projeto de evangelização “proclamar a palavra” como fruto da 5ª APD (5ª Assembleia do Povo de Deus). Ao chegar à Basílica de Santo Cura d’Ars, procurei conhecer primeiro a caminhada pastoral realizada através dos grupos, pastorais e movimentos. Trata-se de uma comunidade que tem muitas pessoas capacitadas que já realizam muitos trabalhos, tanto na perspectiva interna quanto externa da comunidade referindo-me aqui aos trabalhos sociais. A comunidade, pelo potencial que possui, ainda pode oferecer muito à sociedade sendo, através de cada membro como diz o documento 105 da CNBB, “Sal da terra e luz do mundo”.

O que o senhor tem a nos dizer sobre a importância do Sacerdócio?

Para falar sobre a importância do Sacerdócio, retomo a reflexão da Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis do Papa São João Paulo II. Em Jeremias 3,15, Deus promete a seu povo que jamais o deixaria privado de pastores que os reunissem e guiassem. E Jesus, o Bom Pastor, confiou aos Apóstolos e aos seus sucessores o ministério de apascentar o seu rebanho. Os presbíteros, por sua vez, colaboradores da ordem episcopal, participam desse mesmo ministério. Assim, a importância desse ministério, isto é, do sacerdócio, está na missão que cabe à Igreja de cumprir o mandato do Mestre e Senhor: “ide, pois, ensinai a todas as nações” (Mt28,19) e “fazei isto em minha memória” (Lc 22,19; 1Cor11,24).

Com essas palavras, Jesus nos orienta a anunciar o Evangelho e a renovar todos os dias o sacrifício do seu corpo entregue e do seu sangue derramado para a vida do mundo. E tendo feito a promessa de que estaria Conoco até o fim dos tempos, sua presença se dá por meio da Palavra proclamada, da liturgia celebrada, do ministro ordenado e de cada pessoa, templo vivo da morada de Deus.

Desse modo, o presbítero participa do Sacerdócio de Cristo, pois o Sumo e Eterno Sacerdote por excelência, é Jesus Cristo. Essa é a razão pela qual o ministério sacerdotal dos presbíteros se dá em profunda consonância a Cristo Jesus. Trata-se do Sacramento da Ordem, que, por sua vez, compreende três graus: o episcopado, o presbiterato e o diaconato. Cada um de nós chamados à vocação sacerdotal, sabemos tratar-se de algo que humanamente é impossível. É somente pela graça de Deus, conferida pelo sacramento da ordem e a abertura à mesma, que poderemos responder, a exemplo da fidelidade de Jesus Cristo no exercício do seu ministério a serviço do Pai, a tão sublime missão de sermos também Nele e com Ele os que sinalizam o amor salvífico de Deus por cada pessoa nas realidades mais diversas em que se encontrarem.

Quais os desafios e as alegrias desta missão?

A exemplo do que ocorre com toda missão, não é diferente quando se fala do ministério sacerdotal. As alegrias são inúmeras considerando a amplitude do exercício do ministério. Nesse horizonte vale destacar a oportunidade do acolhimento a cada pessoa, a escuta atenciosa, a presidência dos sacramentos, todo e qualquer serviço, por menor que seja realizado na perspectiva do seguimento e exemplo do Cristo servidor. Alegra-me muito e realiza-me vivenciar a experiência da graça de Deus na vida e na história de seu povo, assim como na minha própria vida de presbítero. É gratificante poder acompanhar as pessoas em seu processo de crescimento, proclamar a Palavra, a convivência numa comunidade eclesial através do encontro com as várias pessoas numa diversidade enorme de possibilidades e limites… Enfim, é imensa a alegria que permite ao coração experimentar a ação de Deus através da pobreza e pequenez humana, em meio às nossas muitas limitações. É, na verdade, a graça de Deus que age permanentemente na nossa história pessoal e também na vida do povo a nós confiado.

Quanto aos desafios, são inúmeros. Ao iniciarmos o caminho vocacional, nunca sabemos de fato como serão, quais as dificuldades que teremos e as complexidades próprias das situações. As imaginações e fantasias acerca de qualquer caminho a ser escolhido nem sempre se verificam ao percorrer a estrada. Vamos deparando-nos com pessoas, realidades, circunstâncias, acontecimentos que, por sua vez, nos apresentam desafios. Estes se circunscrevem no campo pessoal através das inabilidades e incapacidades, fruto até mesmo de etapas que ainda não vivemos, de habilidades que ainda não desenvolvemos. Nesse contexto é fundamental paciência e espera histórica.

As dificuldades, contudo, são mais complexas quando se situam no mundo do outro, de suas escolhas, que acabam interferindo e comprometendo o caminho da ação pastoral e evangelizadora. Mas, sejam quais forem as experiências no âmbito das alegrias e dificuldades, quando acolhidas, colaboram para a nossa qualificação e o aprimoramento de todo o trabalho pastoral. Os desafios e dificuldades que se manifestam ao longo do caminho, devem ser vividos na perspectiva de nossa identificação com a cruz de Cristo sendo capazes de tudo oferecer ao Pai por amor. A oração que se reza, ao ser colocada as oferendas nas mãos do ordenado, ajuda-nos a tomar consciência do que fazemos e a identificar nossa vida com o mistério que celebramos. Assim, as alegrias e esperanças, sofrimentos e dificuldades, dores e angústias que, todo ser humano experimenta e cada presbítero como humano que é, deve ser tudo apresentado ao Pai identificados com Jesus Cristo e movidos pelo amor do Espírito.

O que dizer para quem se sente chamado ao sacerdócio?

A vocação é sempre um dom, uma graça, uma oportunidade, e precisa ser respondida com amor, afinco, perseverança e fidelidade não só ao longo de todo o processo formativo, mas de toda a vida. A cada dia é preciso uma resposta que, ao mesmo tempo, possibilite a renovação e conduza o sacerdote às fontes de sua vocação, sintonizados com os requisitos da atualidade. É no aqui e agora que vamos respondendo ao chamado.

Esse movimento pede maturidade humana, intelectual, psíquica e espiritual. Daí surge a necessidade de um retorno à altura do chamado, com o empenho pessoal se responsabilizando pelo caminho a ser trilhado, sendo o sacerdote protagonista no seu caminho vocacional. Faz-se necessária também a busca e o aprofundamento da espiritualidade centralizada na pessoa de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote do Pai. Ele é o Sacerdote por excelência. Centrar-se Nele permanentemente ajudará na verificação constante do nosso chamado, contribuindo, desta forma, para não perdermos de vista o real motivo e sentido da vocação e, por consequência, obtermos sempre a “novidade” da resposta.

O caminho de verificação vocacional compreende cada dia, durante toda vida. Abrir-se à graça de Deus e permitir que o ser humano que somos com seus inúmeros limites e possibilidades sejam trabalhados, é a tarefa a que não se pode furtar. Caso contrário, as consequências serão desastrosas para nós mesmos, bem como para o Povo de Deus a que somos chamados a cuidar e conduzir. Enfim, renovar e aprofundar o nosso “sim”, a cada dia, empenhando-nos atenciosamente na tarefa de ajustar nosso coração e nossa vida àquele que nos chamou, Cristo, é um necessário e gratificante trabalho. É uma missão a que precisamos nos dedicar no caminho vocacional, tanto de quem está iniciando o processo, quanto daqueles que já deram sua resposta, mas desejam qualificar-se sempre mais.

O senhor teria alguma mensagem para outros padres no dia do sacerdote?

No dia 4 de Agosto, celebramos o padroeiro dos padres diocesanos, São João Maria Vianey, o Santo Cura d’Ars. Contemplar a vida desse santo nos ajuda a mergulhar no espírito com que somos chamados ao exercício do ministério sacerdotal. Trata-se de um homem simples, rotulado de menos inteligente por não desenvolver-se no latim, mas de um coração, uma espiritualidade e capacidade acolhedora capazes de despertar a atenção daqueles que o procurava para deixar-se instruir por suas palavras. Nesse horizonte, acolhemos permanentemente as palavras do Papa Francisco, em que somos convidados a exercer nosso ministério segundo o coração de Cristo Sacerdote, manso e humilde. Pronto para acolher a todos e sinalizar a alegria do amor de Deus a cada coração que dele se aproximava, necessitando de uma presença, de uma palavra, de acolhimento, de orientação.

A mensagem que desejo levar a cada irmão presbítero é a da renovação permanente do “sim” dado ao chamado feito a cada coração. O chamado que naquele dia ouvimos e com prontidão buscamos responder ao iniciarmos o caminho, independentemente da altura do caminho que cada um esteja, seja renovada diariamente. A alegria experimentada não seja diminuída, as experiências vividas qualifiquem a resposta, os desafios e sofrimentos sejam alegremente oferecidos. Enfim, que a primazia do amor na identificação com o Mestre do amor e da vida, impulsione sempre mais o coração de cada presbítero no exercício do ministério para a glória de Deus e para o bem do seu povo. Exigente é o caminho, mas, ao mesmo tempo, gratificante. Cada um de nós é capaz de dizer das alegrias experimentadas como expressão do carinho, do amor de Deus que nos acompanha sempre.

Desejo a cada presbítero que encontre em Cristo Sacerdote a alegria de fazer de sua vida, uma vida oferecida na alegria do amor, da oferta a serviço do Reino de Deus, no encontro com cada irmão. Servir, lavar os pés de nossos irmãos, é nossa missão. Difícil em alguns momentos, desafiadora é a missão, mas gratificante quando tudo podemos e fazemos sempre inspirados por Ele: Cristo Sumo e Eterno Sacerdote do Pai. Ao participarmos do seu sacerdócio, convençamo-nos de que se trata de um serviço e que busquemos responder ao mesmo, sempre mais, com empenho, comprometimento, alegria e renovação.

Por meio daquele que está sentado à direita do Pai e intercede por nós, sacerdote que é Cristo, abençoados sejam nossos presbíteros. Que o Senhor da vinha renove em seus corações a graça sacerdotal e fortaleça na fidelidade missionária toda a Igreja em saída, buscando, no encontro com cada pessoa, anunciar a “Alegria do Evangelho”.

Permaneçamos fiéis à graça recebida. Parabéns a todos pela participação no sacerdócio de Cristo Jesus. Parabéns pelo dia do Padre.