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Ensinamento de Santo Afonso sobre a oração (1)

O grande teólogo e missionário, Santo Afonso Maria de Ligório, escreveu sobre diversos assuntos da fé. Tornou-se patrono dos confessores e moralistas por sua grande obra sobre temas da teologia moral que, no seu tempo, encontrava-se dilacerada pelas disputas entre os laxistas, excessivamente benévolos, e os rigoristas, excessivamente exigentes.

 

Nosso doutor propõe a via do equilíbrio como caminho de solução para os problemas que afligiam os católicos daquele período.  Afonso, no entanto, era um homem espiritualmente refinado, conhecia a fundo a rica tradição espiritual da Igreja, da qual se alimentava e na qual descobriu um fio condutor para seu pensamento. Esse fio condutor nós o identificamos com a “oração”. Embora não tenha elaborado um sistema original para a oração, muito cedo se convenceu de que ela é o melhor meio para aprofundar a relação com Deus nas circunstâncias concretas da vida.

 

Afonso escreveu muito sobre a oração com a finalidade de oferecer a seus leitores dispositivos acessíveis para um caminho espiritual que lhes fizesse sentir a proximidade de Deus. Em última instância, para ele tudo se passa “entre a pessoa e Deus”. A questão crucial para nosso santo se resume no relacionamento pessoal com Deus. Faltando esse relacionamento, a vida cristã perde autenticidade.

 

Estudiosos da religião afirmam hoje que a oração é o núcleo de qualquer experiência religiosa. Pois, para Afonso, o ser humano é, antes de tudo, homo orans (homem que ora). Criado por Deus e salvo por Ele em Jesus, só em Deus encontra sua realização última, diante da qual os bens passageiros são sombras que passam. O próprio ser do homem finca suas raízes no mistério de Deus, no qual se penetra através da oração. Ela realiza a comunhão com Deus tornada possível pela entrega do Filho e efusão do Espírito Santo.

 

Na oração, entramos em relação com Deus. Onde não há oração não se descobriu ainda a existência real de Deus, que permanece distante. Por isso, Afonso vai descrevê-la como a maior, a mais nobre e a mais fantástica aventura humana. A oração nos faz entrar no mistério inabarcável de Deus, por mais frágeis, inseguros – e até pecadores – que sejamos.

 

Talvez, se Santo Afonso pudesse nos dizer uma palavra hoje, não se perderia em especulações complicadas. Buscaria nos convencer da importância da nossa relação com Deus, a ser aprofundada pela prática da oração. Tentaria entender o nosso modo de viver, nossas preocupações, medos, inseguranças e dúvidas para nos sugerir uma oração simples, que nos permitisse encontrar em Deus a solução para nossos conflitos. Estaria atento aos nossos problemas do dia a dia, que enfrentamos em casa, no trabalho, nos estudos, nas relações. Não lhe escapariam aquelas situações-limite que carregamos, que não nos dão trégua e que nos fazem sentir isolados dos outros e, às vezes, até de Deus.

 

Nosso santo era muito sensível às dores e às penas do coração humano. Evitaria sempre respostas prontas e imediatas, soluções fáceis para problemas complexos. Não seria um profeta da “graça barata”, que promete muito e não resolve nada. Consultando as Sagradas Escrituras, a tradição da Igreja e o próprio coração humano, nos apontaria um caminho simples para experimentar a graça da redenção abundante que, se não resolve tudo, faz emergir perspectivas verdadeiras para nossa existência.

 

A oração nos faz entrar no mistério inabarcável de Deus, por mais frágeis e inseguros que sejamos

Deus nos ama: eis a convicção do santo – e nos provou o seu amor por meio da criação do mundo, da encarnação e da morte de Jesus, seu Filho. Jesus oferece redenção abundante a todos e o meio mais excelente para encontrar o amor de Deus é justamente a oração. O santo argumenta logicamente: a oração é essencial para aprofundar nossa relação com Deus. Todos recebem ajuda suficiente para rezar. Cristo oferece a todos a copiosa redenção.

 

Ouçamos o que Afonso nos diz: “Eu, tendo observado a necessidade de rezar, que impõem todas as divinas Escrituras, procurei introduzir nas missões da nossa Congregação, assim como se pratica há muitos anos, a pregação sobre a oração. E digo e repito e repetirei sempre, enquanto eu viver, que toda nossa salvação está em orar e, por isso, todos os escritores nos seus livros, todos os oradores nas suas pregações e todos os confessores na administração do sacramento da penitência não deveriam inculcar outra coisa mais do que esta: orar sempre. Devem sempre advertir: orem, orem e nunca deixem de orar, porque, se orarem, certa será sua salvação, mas se deixarem de orar, certa será sua condenação”.

 

Oração e salvação emergem na espiritualidade de Santo Afonso como duas faces de um mesmo mistério. A oração constitui o grande meio da salvação. Mas como ele apresenta esses dois temas? Disso trataremos na próxima edição.

 

Pe. Paulo Sérgio Carrara, CSSR.
Professor na FAJE e no ISTA, em Belo Horizonte