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Encontros catequéticos sim, aula de catequese não

 
“Nossa paróquia está apostando numa catequese meio fora do padrão, isso é arriscado!”, dizem alguns. Outros afirmam: “Nunca vi isso: uma catequese onde os catequizandos não usam caderno, nem livro, nem fazem dever de casa!”. E não falta quem questione: “Que catequese é essa que não ensina nada para os meninos? Meus filhos não aprenderam até hoje os sacramentos, nem os mandamentos, nem as orações do cristão!”. Está posta a questão. De fato, não é de estranhar que pais e catequistas estranhem esse novo jeito de fazer catequese. Acostumados como estávamos com o ritmo escolar da catequese, qualquer alteração é logo vista com olhares de desconfiança.

Mas quem disse que catequese é aula? Quem disse que catequese é para aprender coisas, que ela deve ter livro e caderno? Nos artigos anteriores já vimos que esse modelo catequético veio do catecismo de Trento. Mas, bem antes, no tempo dos primeiros cristãos, não era assim. A catequese, chamada catecumenato, não era aula de religião, mas experiência de discipulado. Ou seja, era ocasião para conhecer Jesus, descobrir a beleza de sua proposta e ser mergulhado no mistério do seu amor sem fim. A catequese não trabalhava com a pedagogia do ensino (quando o catequista tem a verdade da fé e a transmite ao catequizando, desconsiderando sua inteligência e seus conhecimentos), nem com a pedagogia da aprendizagem (quando o catequizando, orientado pelo catequista, constrói seu conhecimento de Deus a partir de sua experiência).

 

Jesus é uma pessoa e uma pessoa a gente
não estuda, a gente estabelece uma
relação com ela.
Por isso, é tão importante que a
base de nossa catequese seja o encontro e
não a aula

A pedagogia que prevalecia era a pedagogia da iniciação, ou seja, a pessoa era iniciada na fé, era mergulhada no mundo maravilhoso da fé cristã por meio de orações, ritos, símbolos, celebrações, reflexões, escuta da Palavra de Deus e partilhas. O objetivo não era ensinar à pessoa coisas sobre Deus, nem doutrinas, nem ensinamentos morais… O objetivo era dar aos catecúmenos a experiência cristã de Deus, colocá-los em contato com o Deus de Jesus Cristo que, por meio do seu Filho, se revelou a nós. O conteúdo principal da catequese não era a verdadeira doutrina, nem uma mensagem bonita, mas uma pessoa que de tanto amor se entregou à cruz.

 

Hoje em dia, a gente está redescobrindo a importância dessa catequese. Quando o Papa Bento XVI veio ao Brasil para o Congresso em Aparecida, ele disse uma frase óbvia e simples, que tem sido repetida, inúmeras vezes, por todos nós. O Papa falou que a gente não se faz cristão seguindo uma verdade, nem uma doutrina, nem ensinamentos morais, mas uma pessoa: Jesus Cristo. E como será que vamos, então, conhecer Jesus? Será que o formato aula é o melhor para esse conhecimento? Bem, pensamos que não. Jesus é uma pessoa e uma pessoa a gente não estuda, a gente estabelece uma relação com ela. Por isso, é tão importante que a base de nossa catequese seja o encontro e não a aula.

 

Só se conhece uma pessoa depois de muitos encontros e, sendo realistas, nunca se conhece totalmente alguém. Por isso, é tão importante manter um diálogo amoroso e aberto com as pessoas. É isso que a catequese permanente que algumas paróquias estão adotando está tentando fazer. Ela não quer dar aulas de religião, nem ensinar coisas sobre Deus. Ela quer promover o encontro das pessoas com Jesus. Ela quer ajudar crianças, jovens e adultos a entrarem em relação amorosa com Deus. E isso não se faz numa aula, mas num encontro alegre, animado, divertido, respeitoso, com músicas, orações, partilhas, atividades pedagógicas, celebrações, ritos…

 

A fé é algo existencial que mexe com
nossa vida toda.
E se ela não
falar algo à nossa
existência será
inútil

Certamente que essa mudança de aula para encontro não vai deixar a catequese perder o seu teor de seriedade. E muito menos vai abolir seu compromisso de dar as razões da fé, por meio da intelecção, da apropriação teológica dos conteúdos da fé. Claro que não! É até o contrário: entendemos que o rigor teológico dos encontros catequéticos deve ser muito grande. É preciso tirar a fé do campo mitológico ou devocional e colocá-a no campo teológico, onde fato ela está. Mas, para isso, os encontros não precisam ser aula, nem pura decoreba, nem ensino religioso.

 

A gente aprende não é só com a cabeça, mas com o coração e com todos os sentidos. Uma criança aprende que a mãe a ama não porque a mãe lhe dá aulas diárias sobre o amor, porque a faz copiar no caderno “Eu te amo!” ou “Devo respeitar e amar a mamãe”, mas porque ela experimenta esse amor e esse respeito diariamente, em cada gesto, em cada cuidado, na relação amorosa que elas constroem.

 

Assim também acontece na catequese: não é estudando sobre Deus que vamos nos tornar amigos de Deus, discípulos de Jesus. É entrando em relação com ele e com os irmãos de fé. Por isso, uma música bonita que a gente canta, reza e reflete pode nos falar mais de Deus e nos aproximar mais dele do que um discurso chato e intelectualizante, sem nenhuma ligação com a vida. Uma brincadeira que a gente faz pode nos ajudar a guardar no coração muito mais do que uma matéria que a gente copia no caderno. E um momento de oração pode tocar mais o nosso coração que mil palavras do catequista.

 Nesse novo modelo de catequese que vai surgindo nas paróquias, a fé cristã não está sendo negligenciada; ao contrário, está sendo levada a sério até demais. Acontece que a gente se equivocou quando entendeu que fé é coisa para aprender com a cabeça. A fé é algo existencial que mexe com nossa vida toda. E se ela não falar algo à nossa existência será inútil. Nossos encontros de catequese vão trabalhar essa dimensão existencial e relacional da fé: relação com Deus e com os irmãos.

 

Solange Maria do Carmo
Professora de Sagrada Escritura e Catequética na PUC Minas
 www.fiquefirme.com.br