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Elogio, bajulação e crítica

Desde criança somos confrontados com essas expressões, e quase sempre ficamos atrapalhados com as diferentes interpretações e aplicações dadas a elas. Talvez por isso mesmo, quando chegamos à vida adulta, temos dificuldades para utilizá-las corretamente. Não as palavras, mas o que elas significam. Ficamos com receio de elogiar alguém e nossas palavras serem tomadas como bajulação.

 

Não aceitamos críticas, porque foi-nos introjetado que ser criticado é ser humilhado. E assim passamos pela vida, evitando elogiar as pessoas e duvidando dos elogios que recebemos. Criticando tudo o que nos desagrada, mas nos aborrecendo ou até nos enfurecendo, quando alguém ousa nos criticar.

Contudo, elogios e críticas fazem parte de um bom relacionamento entre pessoas, desde que mantidas certas regras fundamentais. Sem pretender ser dogmático, faço algumas considerações sobre elas.

 

O elogio, obviamente partindo da ideia de que é espontâneo e autêntico, é uma das coisas mais importantes no relacionamento entre pessoas

O elogio, obviamente partindo da ideia de que é espontâneo e autêntico, é uma das coisas mais importantes no relacionamento entre pessoas. Exemplo importante é a atitude dos pais e mestres elogiando seus filhos e discípulos, quando eles o merecem. Obviamente não falamos do elogio fútil para coisas corriqueiras, usado repetitivamente. O elogio deve ser feito no momento certo e por justa razão, pois só assim estimula a quem o recebe, para valorizar o que fez, e repeti-lo sempre que oportuno. Além disso, na criança e no jovem em formação de sua personalidade, estimula intensamente o desenvolvimento da autoestima, essencial para sua felicidade futura.

Pode-se afirmar que um elogio muitas vezes nasce da satisfação de quem o faz, por nos ter observado realizando algo que ele admira, e que ele mesmo gostaria também de ter feito.

Curiosamente, muitos adultos, quando elogiados, ou declinam polidamente, inclusive com palavras bastante inadequadas – e nem sempre sinceras – agradecendo e retrucando: “Bondade sua!”, “Ora, eu não mereço!”, “São seus olhos!” e ainda “Não fiz mais do que minha obrigação!”

Tais expressões têm uma conotação bastante sugestiva de hipocrisia, especialmente quando se pensa: “Ora, eu sou muito bom nisso!” ou “Claro que o que fiz foi maravilhoso!” Contudo, se não for hipocrisia, certamente evidenciarão uma acentuada baixa autoestima. Nesse caso, significam: “Como essa pessoa pode ter gostado do que fiz, se eu mesmo não apreciei isso?” Ou: “Não acredito no que ela diz. Está só tentando me agradar” e, pior ainda: “O que ela está querendo de mim?…”
Geralmente, essas pessoas são extremamente econômicas em elogios, raramente reconhecendo, de viva voz, alguma coisa que outra pessoa fez, e o fez bem.
 
 

A crítica construtiva nunca nos humilha, mas nos ajuda e nos engrandece

Todavia, as pessoas que têm autocrítica bem equilibrada e sagaz, com facilidade reconhecem quando o elogio feito é falso, oportunista, e focado em possíveis vantagens a serem obtidas da pessoa elogiada. Mesmo que o fato elogiado o tenha merecido, quando há hipocrisia isso soa bem claro. E nesse caso deixa de ser elogio para ser bajulação. Que certamente é uma das coisas mais detestáveis para quem se respeita e gosta de ser respeitado.

A crítica é outra atitude importante, porém perigosa. E isso decorre do fato de que existe a crítica construtiva e a pejorativa, destrutiva. Quando é feita por quem nos estima ou ama verdadeiramente, geralmente objetiva apontar-nos alguma coisa que falamos, fizemos ou provocamos, e que foi inadequada. E sua intenção é tão somente ajudar-nos a rever, refazer ou nos desculparmos por aquela atitude. Com isso procura-se restaurar um equilíbrio que foi ou estará em vias de ser rompido, com evidentes prejuízos para um ou os dois lados. A essas críticas devemos ser gratos, tendo a humildade para ouvir, e o reconhecimento para agradecer a quem no-las fez. A crítica construtiva nunca nos humilha, mas nos ajuda e nos engrandece.

Na boca de quem cultiva sentimentos negativos contra determinada pessoa, a crítica, mesmo bem embasada não trás consigo nenhum objetivo construtivo. Muito pelo contrário, ela pretende humilhar e desvalorizar a pessoa perante os outros e especialmente para si própria. Por isso, também diante de uma crítica, ter uma sólida autoestima embasada numa consciência crítica bem amadurecida, é de vital importância. Só assim seremos capazes de ouvi-la, reconhecendo logo o seu verdadeiro objetivo. Contudo se a crítica, mesmo sendo pejorativa estiver bem embasada, devemos agir exatamente como o nosso detrator não espera. Ou seja, aceitá-la no que tiver de bom, sem refutá-la a priori, tirando dela o melhor proveito para nosso aperfeiçoamento pessoal. Sem se sentir humilhado, e mais ainda, não retaliando de forma alguma. Afinal, se o fizermos estaremos caindo no jogo do detrator.

Por outro lado, se nada de positivo encontrar nela, simplesmente vamos ignorá-la e seguir em frente, sem dar a quem a fez, a satisfação de acreditar que alcançou seu objetivo malévolo.

 

Evaldo D´Assumpção
Médico, Escritor, Biotanatólogo e Bioeticista
Membro Emérito da Academia Mineira de Medicina