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Eleições 2014 e participação popular

Estamos em ano de eleições para a Presidência da República, os governos estaduais e outros cargos legislativos. Não só, estamos às vésperas do pleito! Como não poderia deixar de ser, são várias as iniciativas em curso em todo território brasileiro. Iniciativas diferentes, sem dúvida, mas combinadas e articuladas entre si. Entre elas, vale destacar antes de tudo a 16ª edição do Grito dos ExcluÍdos, com o lema “Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”, sempre sublinhando o tema da “vida em primeiro lugar”. Promovida por uma série de entidades, movimentos sociais e sindicais, além de outras organizações não governamentais, trata-se de superar o patriotismo festivo e passivo das arquibancadas, o qual costuma marcar o aniversário da Independência em 7 de setembro, por uma participação consciente, viva e ativa. Em outras palavras, deixar a plateia anônima e entrar em campo para participar coletivamente do jogo.

Promovida igualmente pelos mesmos atores sociopolíticos e sociopastorais, a 5ª Semana Social Brasileira (SSB) segue com os debates sobre o tema sobre o “Estado para que e para quem”, tendo como objetivo “uma participação da sociedade na democratização do Estado brasileiro”. Está em pauta, entre outras coisas, o empenho pelo desenvolvimento e consolidação de uma economia popular solidária, que já conta com variados projetos em andamento; o esforço por democratizar os meios de comunicação de massa, responsáveis por não poucas distorsões dos fatos; a agenda de reformas político-administrativas, cada vez mais urgentes e necessárias; bem como a ideia de resgatar a própria dignidade da política, ou da ética na política, fortalecendo, por exemplo, os fóruns sociais e os Conselhos Populares, onde se discute em comum os problemas que atingem a população de baixa renda, gerando pobreza e exclusão social.

O corolário dessas duas iniciativas (em parceria com outras) será a realização, de 1º a 7 de setembro de 2014, do Plebiscito popular pela Constituinte exclusiva e soberana do sistema político. Trata-se de uma consulta popular que tem levado milhões de pessoas às urnas, como por ocasião dos debates sobre a dívida púplica brasileira e a participação (ou não) do Brasil na Alca. Como se pode ver, na contramão dos tradicionais desfiles de carros militares e armas, cavalos e soldados, autoridades e escolares, o Dia da Pátria se converte não somente em uma data festiva e comemorativa, mas também em um momento privilegiado de conscientização, organização e mobilização das forças populares. Um patriotism de caráter positivo e prospectivo.

Numa palavra, dia de luta e de compromisso sociopolítico! No horizonte desse conjunto de atividades, a utopia do Projeto Popular para o Brasil, ou então – retomando a memória de outros Gritos, de outras Semanas Sociais e de outros Plebiscitos – a construção coletiva do “Brasil que queremos”, com novas expressões em suas “alternativas e protagonistas”. Parte-se do pressuposto de que as decisões sobre os destinos do país não podem ser concentradas em poucas mãos, mas envolver o maior número de cidadãos. Menos ainda podem ser concentradas nas mãos das velhas oligarquias, dos que detêm a maior parte da renda e da riqueza, dos oportunistas de plantão, e dos corruptos infestados pelo vírus cotagioso do uso indevido dos bens públicos.

Mas a esta altura, um desfile de perguntas se levanta com toda força: até que ponto os candidatos estão sintonizados com tais iniciativas? Até onde e como estão dispostos a tomar a sério esses debates, integrando-os em seus programas politicos? A temática de suas campanhas eleitorais – cada vez mais dispendiosas pelo marketing apelativo – converge ou não para as mesmas águas de semelhantes debates e propostas populares? E se, por parte deles, há de fato interesse em acompanhar as discussões em curso, quantos e quais o fazem de forma efetivamente comprometida? Além das costumeiras e batidas promessas, dá para esperar algo de novo?

Eis as interrogações, dúvidas e inquietudes que não querem calar! E o desfile de perguntas poderia continuar. Elas estão no dia-a-dia de muitas pessoas e famílias, fazem parte de não poucas conversas de rua ou de praça, de botecos e filas de espera, de feiras livres e supermercados, sem contar que ocupam a programação de numerosas organizações de base. O interesse por tais questionamentos torna-se ainda mais vívido e caloroso em tempo de campanha eleitoral. Mas parece haver um hiato, um abismo às vezes crescente intransponível, entre aquilo que ocupa e preocupa a mente, o coração e as mãos dos trabalhadores e trabalhadoras, por um lado, e, por outro aquilo que se aprova ou desaprova nos altos escalões da administração pública.

Disso decorre, naturalmente, uma outra questão: em que medida essas preocupações da planície alcançam as alturas do Planalto Central; em que medida os dramas vividos por quem habita a base da pirâmide social chegam aos habitants do topo; ou ainda, em que medida o coditiano dos simples mortais passam pelos corredores, salas, escritórios e auditórios dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo? Os pilotos da nave chamada Brasil conhecem de verdade os problemas de seus passageiros ou mais parecem extra-terrestres? Perguntas, perguntas, perguntas… para trazer à tona tanto na Semana da Pátria quanto no processo eleitoral já em curso e em pleno vapor!

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais