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Dom Wilson preside abertura da Novena no Santuário de Aparecida: leia a homília

Dom Wilson Angotti, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, celebrou a abertura da Novena da Padroeira do Brasil, no Santuário Nacional Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida, São Paulo.

A celebração foi realizada nesta sexta-feira, dia 3 de outubro, às 19h, e foi acompanhada por milhares de fiéis e transmitida em rede nacional, pela TV Aparecida.

Veja abaixo o texto da homília de dom Wilson durante a abertura da Novena de Nossa Senhora Aparecida:

Maria defensora da dignidade humana

Introdução: Novena no contexto de importantes comemorações
 
Prezados irmãos presentes no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida e todos os que nos acompanham pelos meios de comunicação, desejo-lhes abundantes bênçãos e graças de Deus.

Estamos, hoje, iniciando a novena em preparação à festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Nesta ocasião, creio que me caiba uma palavra introdutória a toda reflexão a ser desenvolvida nos próximos dias.

Esta novena que iniciamos transcorre no contexto das comemorações dos  300 anos em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada e também  nas comemorações dos 50 anos do Concílio Vaticano II, que se deu entre os anos 1962 e 1965. O Concílio foi o mais importante evento eclesial do século XX.

1- Nossa Senhora no mistério de Cristo e da Igreja:

É justamente esse Concílio que nos ilumina sobre a maneira adequada de expressarmos nossa devoção a Nossa Senhora, fazendo-nos considerá-la em relação ao mistério de Cristo e da Igreja (cf. LG VIII).

Não são simplesmente os méritos pessoais de Nossa Senhora que nos fazem reconhecer sua grandeza e que suscitam nossa devoção. Ela mesma nos indica Aquele que é a causa de tudo o que nela exaltamos, e proclama: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é o seu nome”. Por essa frase se exprime, com clareza, a consciência de Nossa Senhora e da Igreja de que a grandeza dela é obra de Deus. Foi Deus que a escolheu, a cumulou de graças, a proclamou bendita entre todas as mulheres e, pela ação do Espírito Santo, gerou em seu ventre Jesus Cristo, nosso salvador. Por isso, reconhecendo a grandiosa e inefável ação de Deus, a Igreja proclama com Maria: “Doravante todas as gerações a proclamarão bem aventurada”.

Através do Anjo, Deus a proclamou “Cheia de graça, bendita entre todas as mulheres”. Assim também nós, Igreja de Cristo, reconhecemos que Maria foi cumulada pela abundante graça de Deus e que, generosa e fielmente, ela respondeu a Deus com seu “sim”, ao dizer: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra. Eis aqui a serva do Senhor”. Esse sim foi mantido sempre com fidelidade exemplar, mesmo tendo que enfrentar as situações mais difíceis e dolorosas.

Desta maneira ela se apresenta em relação ao mistério da Igreja como aquela que, exemplarmente, acolhe o plano de Deus e dá seu sim, mantendo-o fielmente por toda vida. Maria é, pois, considerada em relação ao mistério de Deus como aquela que humildemente acolheu a vontade do Senhor, colaborando generosamente pela entrega total de si mesma. Em relação ao mistério da Igreja ela é modelo de como todos nós devemos servir a Deus. Ela é a Serva do Senhor, a discípula fiel que todos nós, discípulos de Jesus, contemplamos e, procuramos seguir. Desejamos também nós acolher a Palavra de Deus e dar a Ele nosso sim generoso, de modo que o Senhor se faça espiritualmente presente em nós, tal como se fez presente, fisicamente, no ventre de Maria.

A devoção que temos por Maria Santíssima situa-se, pois, em referência a Deus e à Igreja, e isso nos possibilita uma devoção sadia e equilibrada, que enriquece nossa fé e inspira nossa resposta a Deus. Essa clareza de visão é mérito da reflexão do Concílio Vaticano II, que contempla Maria em relação ao mistério de Cristo e da Igreja.

2- Contemplando os mistérios dolorosos do Rosário

A novena deste ano nos chama a refletir sobre os mistérios dolorosos contemplados no Rosário. Veremos como se cumpriram na vida de Maria as palavras de Simeão de que uma espada de dor lhe transpassaria a alma. Assim poderemos perceber que os que se entregam a Deus e O servem não estão isentos de dificuldades e tribulações. Numa época em que tantas pessoas buscam Deus e a religião com o objetivo de se verem livres de todos os seus sofrimentos e para conseguirem aquilo que desejam, nós contemplamos o exemplo de Nossa Senhora que, como fiel discípula, renuncia à própria vontade e busca fazer só a vontade do Senhor e assumindo fiel e firmemente as dificuldades decorrentes de seu sim.

Contemplando a vida de Nossa Senhora nós podemos perceber que Deus jamais prometeu facilidades a quem a Ele se entrega. Pelo contrário, Jesus diz: “quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga”. Deus não nos poupa das dificuldades próprias de nossa vida e missão, mas nos ampara e fortalece a fim de superarmos todas as dificuldades e diz: “quem perseverar até o fim será salvo”.  Os fracos na fé pedem que Deus os livre das dificuldades, dos problemas e dos sofrimentos; os que confiam em Deus, a Ele se entregam e pedem sua força e sua graça para enfrentar tudo com destemor e manterem-se sempre fiéis. Desta maneira, cada dificuldade enfrentada, com fé e confiança em Deus, torna-se ocasião para darmos ao Senhor a prova de nosso amor e de nossa fidelidade. É assim que nós, discípulos de Cristo, podemos manter a confiança e o sim dado, mesmo frente às maiores dificuldades e sofrimentos.

3- Nossa Senhora defensora da dignidade humana – Deus assumiu nossa condição

A Palavra de Deus que há pouco ouvimos (Fl 2, 5-11), nos recorda que o próprio Deus que, em Cristo, assumiu a condição humana, assumiu também tudo o que é próprio à essa nossa condição; por isso, enfrentou o sofrimento e fez-se obediente até a morte, ou seja, fiel até a morte e morte de cruz.
Quando Deus assumiu a natureza humana, Ele nos fez perceber que além de sermos obras de suas mãos, somos também destinados a estar unidos a Ele para sempre. Deus nos criou e nos destinou à união consigo. Eis aqui a grandeza e o fundamento da dignidade humana: somos criaturas de Deus e a Ele somos destinados. Parafraseando Santo Agostinho podemos dizer: “Somos feitos por Deus e para Deus e nosso coração está inquieto enquanto n’Ele não repousar”. Deus penetrou na vida humana de tal maneira que, excetuando-se o pecado, nada do que é humano lhe é alheio. Assim sendo, em todas as situações e circunstancias de nossa vida, mesmo nas mais difíceis e desafiadoras, é possível encontrar Deus. Tal como o Apóstolo, podemos também perguntar: O quê nos poderá afastar do amor de Cristo? Tribulação, sofrimento, fome, nudez, espada? Não, pois de tudo isso somos mais que vencedores, graças ao Senhor que nos amou e por nós se entregou (cf. Rm 8,35-37).

Tendo assumido nossa natureza humana, nosso Senhor se identifica a todo aquele que sofre e declara: “tudo o que fizestes ao menor de meus irmãos a mim o fizestes e tudo o que deixastes de fazer a um deles foi a mim que deixastes de fazer” (cf. Mt. 25). Onde a dignidade e a vida humana são ameaçadas ali Deus está conosco, não simplesmente para nos livrar das situações difíceis, mas para nos garantir que permanecendo fiéis a Ele, mesmo no sofrimento e na dor, com Ele triunfaremos sobre o mal e a morte que nos agridem e afligem, mas não nos derrotam.

Em relação ao mistério de Cristo e como discípula fiel podemos reconhecer que da mesma maneira como Jesus, Maria também, como Mãe amorosa se compadece e se identifica com os mais necessitados e os que padecem sob as dificuldades da vida. Recordemos algumas situações para percebermos como Maria intercede, socorre e ampara todos os que enfrentam dificuldades ou estão fragilizados.

Recordemos como Maria, ao saber que a velha Izabel, sua prima, estava grávida, ela empreende viagem e vai ao seu encontro e por lá fica durante três meses auxiliando e servindo até o nascimento de João Batista. Lembremos como socorreu naquele casamento em Caná, quando faltou vinho e ela se antecipou pedindo a Jesus que fizesse algo para livrar a família daquela embaraçosa situação. Por ocasião da paixão e morte do Filho, incompreendido e rejeitado, condenado injustamente que, ao enfrentar a paixão e a morte, ela, como Mãe, estava presente e acompanhava o Filho na dor. Após a ressurreição de Jesus, junto à Igreja que nascia em meio a um ambiente hostil, ela é presença confortadora e estimulante não se deixando abater e não deixando que se abatesse o ânimo dos discípulos de Jesus. 

Contemplamos nossa Senhora como aquela que, do mesmo modo como acompanhou seu filho Jesus, que sofreu a paixão e a morte, ela também está conosco e com todas as pessoas feridas em sua dignidade. Ela é mãe que acompanha, ampara e defende a vida e a dignidade humana, onde estas são ameaçadas.

Conclusão: nós Igreja seguimos o exemplo de Jesus e de Maria

Como cristãos, tal como Jesus e à exemplo de Nossa Senhora, somos  exortados e convidados a reconhecer a dignidade da vida humana e a defende-la sempre que ela for ameaçada pelo desrespeito, pela exploração, pela violência, pelas drogas e por tudo o mais que a possa agredir.

Peçamos a Nossa Senhora a graça de acolhermos e valorizarmos a vida como dom de Deus e que sejamos, nós também, defensores da dignidade humana onde e quando ela for ameaçada.
Nossa Senhora, defensora da dignidade humana, rogai por nós.