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Dom Geovane destaca os aspectos do episcopado em homilia, na Missa presidida por dom Walter, após sagração episcopal

Bispos do Regional leste 2 da CNBB, que reúne as dioceses de Minas Gerais e do Espírito Santo, e de outras dioceses concelebraram a liturgia na qual foi sagrado bispo dom Walter Jorge Pinto. A celebração ocorreu no sábado, dia 30 de março, na Diocese de Viçosa (MG).

No dia seguinte, em Celebração Eucarística presida por dom Walter,   dom Geovane Luís, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, fez a homilia,  em que realçou os diversos aspectos da vida episcopal.

Dom Walter assumirá a Diocese de Vitória da União, no Paraná, no dia 27 de abril.

Acompanhe a homilia de dom Geovane na íntegra:

O Ministério Episcopal à luz da parábola do Pai misericordioso

“Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome!”(Sl 33, 4)

Introdução
Caríssimos irmãos (ãs) estas palavras do salmista traduzem o sentimento que inunda o nosso coração nesta caminhada rumo à Páscoa da Ressurreição do Senhor, o dia fulgurante e sem ocaso em que se manifesta a Misericórdia do Pai no rosto transfigurado de seu Amado Filho, Jesus Cristo.

Neste IV Domingo da Quaresma ou da Alegria a Igreja proclama a Misericórdia de Deus e nos convida à sua contemplação, pois ela é fonte de alegria, serenidade e paz. A misericórdia é o caminho que une Deus e o ser humano, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados desde sempre e para sempre, apesar da limitação do nosso pecado. Fixemos nosso olhar na misericórdia do Pai, para que nos tornemos sinal eficaz do seu agir paciente no mundo (cf. MV 2.3).

Nesta atmosfera de alegria unimo-nos ao nosso querido irmão Dom Walter, o quarto Bispo da Diocese de União da Vitória, que ao ser elevado à Ordem Episcopal foi ungido pelo amor do Pai, o Espírito Santo, e agora será enviado em missão àquela Igreja Particular para proclamar a todos que lhe foram confiados, tudo aquilo que o Senhor, em sua misericórdia, fez em seu favor (Mc 5,19).

Uma vida emoldurada pelo amor

A parábola do Pai misericordioso que ouvimos há pouco nesta solene liturgia assemelha-se a um grande mosaico no qual se pode contemplar a vida de todo ser humano que se deixa envolver pela ternura divina.
Ao escutar este trecho do Evangelho de Lucas somos transportados para a galeria dramática da vida e da história dos homens e mulheres deste mundo, onde se entrecruzam luzes e sombras que evidenciam o Amor de Deus que se doa a nós sem nada exigir e a recusa livre e obstinada do ser humano a este mesmo Amor. O mosaico, montado artisticamente pelo Evangelista da Misericórdia, nos fala de um Pai que tinha dois filhos e os amava igualmente.

Em busca de liberdade

O Filho mais jovem é o ícone daquele instinto rebelde que pulsa no mais íntimo de nós mesmos, simboliza todo desejo de viver uma vida longe de Deus, autocentrada e fechada em si mesma. Em suma, este jovem é o retrato do ser humano abandonado à sua própria vontade. É belo o seu desejo de autonomia e liberdade, mas ao final tornou-se escravo de si mesmo; sentiu-se sozinho, abandonado e queria saciar sua fome com a lavagem que era dada aos porcos.

O evangelho nos diz que o filho mais jovem aproximou-se de seu pai e pediu-lhe a parte da herança que lhe cabia e depois partiu para um lugar bem distante. Na verdade, o que ele almejava era a morte do Pai, pois a herança só pode ser entregue a um filho após a morte. Para ele o pai era um patrão e sua presença um mal insuportável. Ele queria ser livre, feliz, romper as amarras e não conseguiria isto enquanto seu pai não desaparecesse completamente da sua vida .

Neste primeiro mosaico onde a luz paira sobre o rosto do filho mais jovem emerge um traço que nos ajuda a compreender um pouco da realidade complexa na qual estamos imersos. Uma realidade exigente que nos desafia no exercício da missão.

Por acaso não é esta a situação atual na qual nos encontramos? Muitos querem hoje ver-se livres de Deus, ser felizes sem a presença de um Pai Misericordioso em seu horizonte. Para muitos Deus deve desaparecer da sociedade e das consciências pois o veem como uma ameaça à sua liberdade. Temos hoje no mundo uma multidão de afastados da Comunidade Eclesial e a eles se destina a solicitude pastoral do bispo, de todos os ministros ordenados, cristãos leigos e leigas que atuam na ação evangelizadora e pastoral da Igreja. Como nos recordou o Papa Francisco: “em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, em enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Mas esta situação não pode ser para nós causa de desânimo ou medo. Não! Não digamos que hoje é mais difícil evangelizar; é diferente (EG 263). O amor do Pai que passa pelo Sagrado Coração de Jesus e se derrama em nós pelo Espirito nos impele a evangelizar hoje. Ao longo de sua missão episcopal “procure mostrar um zelo incansável pelos que ainda não pertencem ao rebanho de Cristo, como se lhe fossem entregues pelo próprio Cristo” .

O filho, que se perdera em busca de sua própria autonomia, caiu em si e começou a sentir saudade primeiro das coisas que possuía quando estava na casa do pai, e só mais tarde sentiu a falta daquele amor que somente o pai poderia lhe oferecer. Eis aqui mais um ponto luminoso em meio às sombras do mosaico da misericórdia.

À luz desta parábola podemos afirmar que “já existe, nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente – de conhecer a verdade sobre Deus, o ser humano, o caminho que conduz à libertação do pecado e da morte” (cf. EG 265). Na imagem do filho pródigo desponta também um sinal inequívoco da abertura do coração humano que busca a verdade, e isto deve nos animar e renovar em nós o encanto pela missão. A esse respeito disse o Papa Francisco: “é urgente recuperar um espírito contemplativo, que nos permita redescobrir que somos depositários de um bem que humaniza, que ajuda a levar uma vida nova. Temos à disposição um tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não pode manipular nem desiludir, o Evangelho. Não há nada de melhor para transmitir aos outros” (EG 265).

O Pai misericordioso

No mosaico da misericórdia o pai ocupa um lugar central pois ele é o ponto de convergência dos dois filhos. Jesus nos fala de um pai que surpreende a todos porque não se deixa vencer em generosidade. Ele ama seus dois filhos com amor de mãe e os tem no íntimo do seu coração. Deus é amor que se doa sem nada exigir, respeita até mesmo o mau uso da liberdade dos seus filhos e aceita humildemente ser desprezado.

Por mais que o jovem filho quisesse se afastar do pai, ele teve que se aproximar ao menos para lhe desejar a morte, pedir a herança, partir e viver por conta própria. “O pai consente com seu desejo sem dizer nenhuma palavra, vê o filho partir, mas não o abandona; seu coração de pai o acompanha; cada manhã o está esperando” .

Na figura do pai que espera contra toda esperança evidencia-se também o múnus pastoral do Bispo, servo e testemunha da esperança (PG 65) . Faz-se urgente saber esperar e exercer uma autoridade discreta que respeita a liberdade do outro, mesmo quando esta se traduz numa existência insana, descontrolada e caótica. Saber esperar para abrir-se verdadeiramente ao amor que restaura e cura todas as feridas. A esperança do pai se traduz no amor com o qual ele acolhe e perdoa a atitude imperdoável do filho mais moço .

“Quando o jovem, destruído pela fome e pela humilhação, volta para casa, o pai torna a surpreender a todos. Comovido, corre ao seu encontro e o beija efusivamente diante de todos. Esquece-se de sua própria dignidade, oferece-lhe o perdão antes de ele se declarar culpado, restabelece-o em sua honra de filho, protege-o da rejeição dos vizinhos e organiza uma festa para todos. Por fim, poderão viver em família de maneira digna e feliz” .

A reação do Pai diante do filho mais moço que regressa à casa querendo ser acolhido como um empregado aponta um renovado caminho evangelizador e pastoral para nossas comunidades, onde o Bispo exerce a missão de pastorear amando “com amor de Pai e de irmão todos aqueles que Deus lhe confiou, especialmente os Presbíteros e Diáconos, seus colaboradores no serviço de Cristo, e também os pobres e doentes, os peregrinos e imigrantes ”.

O ícone do Pai misericordioso assemelha-se a um facho de luz que se espraia sobre a Igreja indicando-lhe o caminho da abertura e da acolhida a todos, sem nenhuma discriminação. Um exemplar da Igreja ‘em saída” com as portas sempre abertas. “Sair em direção aos outros, para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, deixar de lado a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldades. A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Ela não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com sua vida fadigosa” (EG 46-47). “Na fadiga que toda conversão comporta existe a certeza de não estar sozinho jamais, de não correr o risco de encontrar ao final uma porta fechada ou um pai que é só juiz implacável e sem misericórdia. Antes, aquele Pai, como disse Jesus em uma outra parábola, está pronto para colocar-se a serviço do filho fazendo-o sentar-se à mesa (Lc 12,37)” , pois para ele cada filho é insubstituível.

Dentre os sinais de afeto e reverência dispensados ao filho mais moço, além da veste nova e das sandálias para proteger os pés daquele jovem, o Pai, num gesto solene, se inclina diante do filho e coloca-lhe um anel no dedo. Dignidade restaurada, aliança firmada, fidelidade renovada: eis aí o significado daquele gesto solene realizado no aconchego daquele ambiente familiar.

Ontem, durante o rito da sua ordenação episcopal você recebeu também um anel e ouviu a palavra da Igreja: “Recebe este anel, símbolo da fidelidade; e com fidelidade invencível guarda sem mancha a Igreja, esposa de Deus” . É bem verdade que na Igreja o bispo exerce a função paterna, mas ele não poderá se esquecer jamais que também é filho regenerado no amor, e por sua vez, é chamado a experimentar em sua vida e ministério o balsamo da misericórdia que o constitui verdadeiramente Ministro da Reconciliação.

Prosseguindo nossa visita à dramática galeria da história humana composta neste mosaico pelo evangelista São Lucas, chegamos afinal diante do último quadro que compõe esta narrativa comovente do retorno de um filho perdido à casa e da acolhida incrível do pai que perdoa sem limites

A fidelidade que se transforma em ódio

Estamos diante do terceiro quadro onde aparece um outro personagem, o filho mais velho. Luzes e sombras pairam sobre esta figura e indicam caminhos para nossa missão eclesial. A contemplação deste mosaico nos ensina tudo aquilo que não devemos fazer, caso queiramos ser discípulos de Jesus Cristo.
O filho mais velho “permanece junto ao pai sem imitar a vida desordenada de seu irmão distante do lar e vê-se como alguém que lhe foi sempre fiel conforme diz: ‘eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos’ (Lc 15,29).

Quando o informam da festa organizada pelo pai para acolher o filho perdido, fica desconcertado. O retorno do irmão não lhe causa alegria, mas raiva: ‘indigna-se e nega-se a entrar’ na festa. Nunca abandonou a casa, mas agora se sente como um estranho entre os seus” .

O pai sai para convidá-lo com o mesmo carinho com que acolheu seu irmão. Não grita com ele nem lhe dá ordens. Com amor humilde procura persuadi-lo a entrar na festa da acolhida, mas o filho mais velho rejeita o amor do pai, não o reconhece como tal e muito menos tem a capacidade de reconhecer seu irmão, deixando a descoberto todo o seu ressentimento. Passou toda sua vida cumprindo ordens do pai, mas não aprendeu a amar como ele ama.

Eis aí a tragédia do filho mais velho que fez a passagem da fidelidade à perversão. Nunca abandonou a casa, mas seu coração esteve sempre longe. Sabe cumprir perfeitamente as leis, mas não fez o aprendizado do amor. Ao concluir sua parábola, Jesus não satisfaz a nossa curiosidade, pois não sabemos se o filho mais velho entrou na festa ou ficou de fora.

O ‘filho mais velho’ nos interpela a nós que acreditamos viver junto do Pai. Ele é a expressão mais nítida de uma religiosidade frígida, hipócrita e estéril que sufoca facilmente o germe do amor . Também nós corremos o sério risco de cuidar das coisas do Pai e não nos deixar modelar pela sua misericórdia que restaura, liberta e cura as feridas do nosso coração abrindo-nos àquele amor que acolhe sem nenhum julgamento.

“A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia” (MV 12).

Ao final desta contemplação do mosaico da misericórdia perguntamo-nos por quais caminhos estamos andando? Lateja em nós a rebeldia do jovem que sai, mas retorna à casa e redescobre o amor do Pai como fonte de vida ou a intransigência do filho mais velho que nunca saiu do aconchego do lar, mas não fez o aprendizado do amor? Com quem nos identificamos?

As duas vias ou modalidades de relação com o Pai, simbolizadas nos dois filhos podem marcar o ritmo da nossa existência. Mas longe de nós tanto a rebeldia do filho mais jovem quanto a dureza de coração do filho mais velho! Se desejamos regressar ao Pai e viver nossa condição de filhos e filhas mantenhamos nosso olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso (MV 1). Hoje o Filho Amado nos conta novamente a parábola, pois é Ele mesmo que nos fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja (SC 7).

“Com o olhar fixo n’Ele podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram dele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os mais pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo nele fala de misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão” (MV 8).

Por Causa de Jesus e do Evangelho, você, meu irmão no episcopado, Dom Walter, aceitou o convite da Igreja para o exercício desta missão. Que seu ministério seja testemunho radiante da misericórdia do Pai em meio a todos que lhe foram confiados, pois um pastor plenamente devotado ao seu trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca os outros (EG 272). Coragem! Vai e proclama tudo aquilo que o Senhor, em sua misericórdia, fez em seu favor (Mc 5,19).

+Geovane Luís da Silva
Bispo Auxiliar – Arquidiocese de Belo Horizonte