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Todos os seres humanos são, ao mesmo tempo, diferentes e iguais. Independentemente de cor, raça, sexo, credo, idelogia, povo, nação, origem – todos somos diferentes e iguais. Isto é, culturalmente diferentes, iguais em termos de direitos, deveres e oportunidades. Além disso, embora iguais, as pessoas têm ritmos diversos, seja no sentido de determinado aprendizado, seja na cadência da caminhada. Todas as pessoas, ainda, têm algo a dizer e algo a escutar, algo a ensinar e algo a aprender. Toda e qualquer pessoa é portadora de um saber, um patrimônio, uma herança, um tesouro.

Os seres humanos (simultaneamente diferentes e desiguais) devem criar pontes e canais, instrumentos e mecanismos para se comunicarem entre si. As diferenças, longe de empobrecerem, pela sua variedade enriquecem o conjunto; e as igualdades nem sempre são capazes de enriquecer, podem ao invés disso saturar e engendrar o tédio ou a mesmice. Daí a necessidade de intercâmbio e confronto, onde diferenças e igualdades passam por um processo recíproco de depuração e purificação. Em semelhante processo, somente o diálogo livre e franco, aberto e confiante será capaz de captar a riqueza na pluralidade de expressões, ou a unidade na diversidade. No contexto do pluralismo universal, a visão se amplia a um mundo cada vez mais multiétnico e pluricultural.

 


Diferenças e igualdades, se e quando reconhecidas e respeitadas, representam uma verdadeira mina, nem sempre explorada em suas pérolas mais preciosas

Disso resulta que, se por uma parte todas as pessoas são diferentes e iguais e, por outra, todas são portadoras de um patrimônio cultural, torna-se absolutamente inoportuno e impossível medir uma pessoa pela outra. Ninguém é superior, ninguém inferior, somos apenas diferentes uns dos outros; diferentes na maneira de ser, vestir, comer, expressar-se e de pensar, mas sempre iguais quando está em jogo o direito à cidadania, o relacionamento e o crescimento da própria humanidade. As pessoas podem ser medidas e comparadas somente em relação a si mesmas, ao seu passado e em vista do próprio futuro, no processo único e irrepetível do desenvolvimento da própria personalidade.

Por isso é que diferenças e igualdades, se e quando reconhecidas e respeitadas, representam uma verdadeira mina, nem sempre explorada em suas pérolas mais preciosas. Para garimpar tais pérolas faz-se necessária uma linguagem apropriada, que todos possam entender. E aqui, junto com a cabeça, a mente e a razão, entra em cena o afeto, o coração a alma. A comunicação e o entendimento reíprocos passam não somente pela lógica gramatical, racional, conceitual e matemática, mas também, e sobretudo, pelo olhar, o sorriso, o gesto, o toque, a postura, a presença, a visita, o abraço, a mão estendida, a simpatia… Enfim, a aceitação do outro em sua diferença e em sua alteridade. Mais do que palavras e escritos, é a linguagem muda ou simbólica que quebra o gelo, abre corações e portas, aproxima as diferenças, descortina horizontes novos e insuspeitados.

Os gestos, ações e parábolas de Jesus, o qual, segundo os relatos evangélicos, “falava como quem tem autoridade”; a presença silenciosa e extremamente fecunda entre os pobres e eXcluídos de Madre de Calcutá ou de Charles de Foucauld; a alegria genuína de Francisco de Assis, na virada profunda e radical de sua vida; o metódo de não violência e a resistência firme de Mahatma Gandhi, frente ao império britânico; a coragem e coerência inquebrantáveis de Dom Oscar Romero, Edith Stein, Nelson Mandela e Martin Luther King, embora cercados por forças hostis e antagônicas; a proximidade popular, simples e transparente do Papa Francisco, despida da pompa e da solenidade que historicamente caracteriza o pontificado; o “sim” de Maria, marcado ao mesmo tempo pela humildade e pela força do espírito, porque disponível à ação de Deus na história; o vigor e o entusiasmo evangélicos dos apóstolos, incluindo Paulo, após o encontro com o Ressuscitado…

Eis o mistério e o segredo dessa nova linguagem: cotidiana, concreta, viva, criativa, confortadora, libertadora… e, o que é mais importante, por todos facilmente compreendida. Em lugar da linguagem marcada pelo egoísmo exacerbado no episódio da Torre de Babel, onde a pretensão do poder rivaliza com o próprio Deus (Gn 11,1-9), na descrição do Pentecostes predomina a linguam divino-humano e humano-divina do amor (At 2,1-13). No primeiro caso, ainda que todos falem a mesma língua, os interesses antagônicos criam denunião e confusão; no segundo, mesmo em meio a povos e línguas distintas, a Boa Nova do Espírito Santo converge para a união e a formação de comunidades, porque vem resvestida de uma nova linguagem.

No contexto da economia globalizada
e do pluralismo
cultural e religioso,
a identidade se
constrói através
do confronto e do diálogo

Linguagem que, por um lado, se abre à supresa das diferenças e se enriquece diante de suas pontencialidades positivas e, por outro, desconfia do perigo de uma igualdade artificialmente opressiva, ou do igualitarismo compulsivo e totalitário. Linguagem que, para falar em termos mais claros, conhece o risco de que a própria igualdade possa empobrecer-nos, degenerando-se em uniformidade de massa, como é o caso histórico do partido único, ou do pensamento único, irmãos siameses do fanatismo, do fundamentalismo e do totalitarismo. Estes, por sua vez, costumam levar à barbárie, à tirania e à violência institucionalizada. É amplamente conhecido e notório o rastro macabro de cinzas, ruínas e escombros – sem falar dos cadáveres insepultos – que tais atitudes deixaram na trajetória da humanidade.

Resulta que a abertura e a escuta do outro, do estrangeiro e do diferente, longe de enfraquecer a identidade de cada pessoa, grupo, povo ou nação, reforça-a. No contexto da economia globalizada e do pluralismo cultural e religioso, a identidade se constrói através do confronto e do diálogo. E mais, constrói-se mediante um processo dinâmico que se amplia e cresce em espiral, ao mesmo tempo que depura e purifica seus valores e contravalores. Como todo o organismo vivo, também o conceito de identidade incorpora novos elementos, ao mesmo tempo que expurga suas células necrosadas. Toda vida se faz, desfaz e refaz num processo orgânico de evolução que, simultaneamente, absorve ingredientes nutritivos e expele dejetos mortos – como uma árvore que realiza a metamorfose do gás carbônico em oxigênio, além de alimentar-se da terra e expelir as folhas secas.

A presença do outro – sempre que se evite a formação de “guetos fechados” e se promova a construção de “comunidades abertas”– é condição para manter uma identidade viva, sadia e florescente. Uma identidade capaz de renovar-se, através de um diálogo profunde de coração, mente e alma, no encontro e reencontro com o diferente.

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais