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O Senhor continua a nos atrair e a querer montar sua própria tenda no meio de nós e em nossos corações, para, desse modo, estabelecer uma relação de profunda amizade conosco e manifestar, por meio dela, a sua glória nas nossas vidas.

 

 Fomos criados para uma relação profunda com Deus, ou seja, para sermos seus amigos. Neste artigo, queremos aprofundar essa reflexão. O próprio Jesus chama de amigos os seus discípulos e, desse modo, quer se relacionar com eles. Somos vocacionados, chamados, no mais íntimo da nossa existência, a essa relação. De fato, esse é um dos elementos que nos distingue das outras criaturas, por isso Santo Agostinho afirmava que o homem é a única criatura que Deus quis em si mesma, referindo-se a esta dimensão de que com ele Deus quer viver uma relação de profunda amizade.

 

Resposta do homem

 

Necessitamos reaprender a “ouvir” o coração, a viver nessa esfera mais profunda e a não nos deixar levar simplesmente pelos sentidos

Não é difícil constatar o fato de que o homem é um ser sempre em busca, pois notamos que o nosso coração está sempre a procura de “algo” que possa satisfazê-lo, não de um modo provisório e passageiro, mas de realidades que possam saciá-lo plenamente. Como é exigente o nosso próprio coração que deseja sempre mais, mais e mais. Esse movimento do coração nos coloca em uma direção que não é simplesmente horizontal, que poderia se satisfazer simplesmente com a  busca, por todos os lados, no limite do tempo e do espaço, do segredo da vida.

 

Mas esse movimento nos coloca numa direção vertical e aqui nos faz transcender os limites da temporalidade e da espacialidade para direcionar o nosso olhar e coração para as coisas do alto. Faz-nos mirar no alvo certo, que é Deus. Vivemos num tempo que tende a nos dispersar do grande alvo e do desejo mais profundo do nosso coração, que são as realidades eternas, como a verdade, o amor, a beleza, a bondade, em outra palavra: Deus!

 

Também nós, cristãos, necessitamos reaprender a “ouvir” o coração, a viver nessa esfera mais profunda e a não nos deixar levar simplesmente pelos sentidos para que, assim, possamos tomar a direção certa. Não raramente observamos que as pessoas em geral vivem “fora de si”, porque não conseguem ler e perceber as motivações, as intenções e, sobretudo, os grandes e profundos anseios do próprio coração. Este, que não só é capaz de pôr os questionamentos mais profundos da própria existência, mas, iluminado pela graça, lançar o homem na direção justa, na direção da busca das “coisas do alto”.

 

 Não pelas próprias forças ou como uma conquista pessoal, mas somente pela graça divina o homem caminha rumo à grande meta da sua vida. Graça que necessita da resposta do homem e, por isso, em tudo pressupõe a sua natureza humana, como afirmava Santo Tomás de Aquino. Dessa maneira, graça e natureza se encontram e é realizado o inaudito: o homem encontrado por Deus passa a descobri-lo e a conhecer o Mistério de Deus Encarnado, presente na sua vida.

 

Responder a partir do coração

 

Há um convite divino que é direcionado ao nosso coração e, por isso, podemos dizer que a resposta também precisa ser uma resposta do coração. Frequentemente percebo no meu ministério sacerdotal que necessito conduzir as pessoas para Cristo e também para elas mesmas. Frequentemente noto que as pessoas desconhecem o próprio coração e, talvez, por isso mesmo, o “encham” de tantas coisas que não são capazes de saciá-lo e assim sofrem tanto por se sentirem estranhamente tão cheias e tão vazias ao mesmo tempo. Quando começamos a ser amigos de Deus, afirmava o Papa emérito Bento XVI, tudo na nossa vida começa a mudar, pois, nesta relação, o coração é transformado e enriquecido pelas verdadeiras riquezas que não passam.

 

Essa grande obra nova realiza-se na nossa vida por meio do Espírito Santo, que gera em nós a intimidade divina, conduzindo-nos pelo caminho da oração. Por meio dele, abrimos a nossa vida, a fim de que Deus possa habitar nela em todas as suas dimensões, até mesmo na nossa debilidade, transformando-a pela sua presença divina. Dizia Santo Ireneu que, a partir da Encarnação, o Espírito Santo se habituou a estar no homem. Por meio da oração, somos nós que começamos a nos habituar a estar com Deus. Por isso, todos nós precisamos aprender a estar com o Senhor e, assim, veremos como é bom estarmos com Ele, que é o nosso amigo.

 

Oração: expressão de amizade

 

O Espírito Santo, que é o criador da intimidade divina, gera por meio da oração – como afirmava Bento XVI – três consequências na nossa vida. Mediante a oração, o Espírito, em primeiro lugar, nos faz “abandonar e superar todas as formas de medo ou de escravidão”, nos conduzindo à experiência de autêntica liberdade, própria da filiação divina.

 

A oração nos revela o próprio modo de ser e agir próprio de filho amado do Pai das misericórdias. Nesta liberdade autêntica, o homem não somente aprende a reconhecer o bem, mas a realizá-lo na sua vida. Ele sente “poder realmente seguir o desejo do bem, da alegria verdadeira, da comunhão com Deus, e não ser oprimido pelas circunstâncias que nos impelem para outros rumos”.

 

Uma segunda consequência é que a nossa amizade com Deus se torna tão profunda, que nossa relação não chega a ser impedida por qualquer realidade ou situação. A oração não tira as provações e os sofrimentos, mas nos permite vivê-los profundamente unidos a Cristo na perspectiva de participar também da sua glória (cf. Rm 8,17). Portanto, afirmava nosso amado Bento XVI: “A oração animada pelo Espírito Santo leva-nos, também, a viver todos os dias o caminho da vida com as suas provações e os seus sofrimentos, na esperança completa, na confiança em Deus que responde como respondeu ao Filho”.

 

Por fim, este tipo de oração abre-se também às dimensões da humanidade e de toda a criação, nos comprometendo com todo o criado, que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19). Isto significa que a oração verdadeira jamais é fechada em si mesma, mas sempre está aberta ao outro. O Senhor continua a nos atrair e a querer montar sua própria tenda no meio de nós e em nossos corações, para, deste modo, estabelecer uma relação de profunda amizade conosco e manifestar, por meio dela, a sua glória nas nossas vidas.

 

Caríssimo leitor, neste artigo me senti interpelado a fazer um convite a você: seja amigo de Deus. O modo de acolher e crescer nesta amizade é particularmente a intimidade com a Palavra, os Sacramentos e a vida de oração.

 

 

BÍBLIA DO PEREGRINO. Edição de Estudo. São Paulo: Edições Paulus, 2002.

BENTO XVI. A Porta da Fé, Carta Apostólica do Papa Bento XVI com a qual se proclama o Ano Da Fé, Paulus, 2011.

BENTO XVI. Audiência geral: catequese sobre a oração em São Paulo, 16 de maio de 2012

 

 

Pe. Rômulo dos Anjos

 Comunidade Shalom