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A dialética da vida humana, que se estende também às realidades sociais, joga com liberdade e também com dependência, entraves exteriores e autonomia. Nunca viveremos um só dos polos. Só dependência anula a pessoa e a instituição. Só liberdade, soa a ilusão e ideologia.

A tensão interna dos dois elementos manifesta-se diferentemente nas circunstâncias históricas e culturais. É só nos determos sobre ela em relação ao nosso País.

Economia, política e cultura têm-nos, ao longo da história do País, destacado, alternadamente, momentos de submissão e independência com tonalidades diferentes. Em vez de percorrer os momentos do passado, perguntemo-nos que aspirações e desejos de liberdade nutrimos nos diversos campos?

Na economia, sofremos a pressão de que ela só se mostra sadia se os indicadores estabelecidos pelas instituições econômicas do sistema capitalista apontam aumento. E a imprensa divulga tal ideologia. A economia cresce, se a indústria automobilística produz mais carro, se a agroindústria ostenta números elevados, se os bancos acumulam lucros gigantescos, se o PIB construído segundo critérios economicistas aumenta. Vivemos submetidos a essa criteriologia, a esse modelo de desenvolvimento.

Um grito de independência faz-se necessário, mas só atingirá essa realidade se outros valores entrarem como prioritários para medir a felicidade do povo. Saúde, educação, convívio de amizade, festas sadias, alegria na vida de trabalho soam estranhos ao mundo econômico. E, no entanto, tais valores constituem fundamentalmente a base de humanidade do povo.

 

Vivemos submissos ao sistema congelado no tempo, alimentado por interesses das classes dominantes
e grupos econômicos que financiam candidatos

Na política, a democracia representativa domina. Constrói-se sobre partidos e suas alianças. Os políticos ostentam a legitimidade das eleições e das escolhas por parte dos eleitores. De novo, vivemos submissos ao sistema congelado no tempo,  alimentado por interesses fundamentalmente das classes dominantes e dos grupos econômicos que financiam as campanhas eleitorais e seus candidatos. Com enorme facilidade se introduz de modo quase impune a corrupção, difícil de ser controlada, punida e debelada. E em que direção vai o grito da independência? No da construção da democracia popular com presença constante do povo nas decisões políticas e não simplesmente reduzida às eleições. Com a entrada das redes sociais existe brecha para transformar a democracia representativa em participativa popular.

Onde prospera a dominação cultural? Dois instrumentos de dominação mantêm as mentes presas: a grande mídia e o império cultural americano. E elas trabalham em ritmo combinado. A cultura popular brasileira vê-se assim ameaçada desde a alimentação até a academia.

De novo, a pergunta pelo grito de independência vai em duas direções. Clama-se por maior presença dos interesses das classes populares nos meios de comunicação social. O povo ainda passa por objeto de manobra das vontades das elites. Além disso, a importação maciça e indiscriminada de outras culturas está a obscurecer expressões valiosas de nossa cultura brasileira na música, na vida e no comportamento do povo. Grite-se pela  independência cultural e proclame-se o cultivo de nossa cultura.

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)