O desapego é a noção mais mal compreendida na vida espiritual. E por ser mal compreendida, é freqüentemente desvirtuada na prática por aqueles que a aprovam, e caluniada e ridicularizada por aqueles que a rechaçam. No desapego, não se compreende precisamente que o seu fim principal seja tornar o cristão capaz de um grande amor.

Os homens consideram-no geralmente como uma tentativa para aniquilar todo o amor, para tornar a alma dura e indiferente. Assim, é natural e justo que o olhem como uma coisa desumana e repulsiva. E, contudo, o desapego é uma atitude que os autores espirituais consideram de uma suma necessidade para a perfeição. Fundamentam essa crença nas palavras do Senhor: “Se alguém quiser vir após mim e não odiar seu pai, sua mãe e a própria vida, não pode ser meu discípulo”(Mat. 16,24-26; Mat. 10,37).

São João da Cruz, baluarte da nossa vocação, insiste repetidas vezes nessa idéia: “Temos de considerar todas as criaturas como nada, e amar a Deus somente”. Temos de perder o nosso amor por todos os homens — o “nosso” amor — isto é, o amor egoísta, voltando para nós mesmos, que vive separado de Deus, se não em direta e completa oposição com Ele. Temos de nos libertar de tal amor, pois se Deus deve reinar soberanamente em nossas almas, nenhum outro amor, pode servir de obstáculo. “Deus é um Senhor ciumento”(Deut.6,14).

 

Aquele que consegue um desapego perfeito troca o coração pelo de Cristo, e daí em diante ama sempre com o coração de Cristo e não com o seu próprio

O sonho de quem busca o Senhor é encontrá-lo, conhecê-lo, amá-lo. São João da Cruz, como guia seguro, indica o caminho da libertação. Uma busca ativa, dinâmica — em suas obras completas (pags.613-614, n.05)nos diz: “Porquanto para buscar a Deus se requer um coração despojado, desprendido, forte, livre de todos os males e bens que não são puramente Deus”, a alma descreve, no presente verso, e também nos seguintes, a liberdade e fortaleza que há de ter para buscar. Aqui, começa a dizer que nesse caminho não colherá as flores que se apresentarem em sua vida, as quais poderiam impedir – lhe a passagem, se os quisesse admitir e aprender.

São de três espécies: temporais, sensíveis e espirituais.

Tantos uns como outros ocupam o coração e servem de obstáculos à desnudez espiritual requerida para o caminho reto de Cristo, se a alma neles repara e se detém. Por isso, diz que não colherá coisa alguma dessas, ao buscar o Amado. Como se dissesse: “Não apegarei meu coração às riquezas e vantagens que me oferecer o mundo; não admitirei os contentamentos e deleites da minha carne; tampouco hei de reparar, prestar atenção aos gostos e consolações do meu espírito; para que em nada disto me detenha na busca de meus amores, pelos montes das virtudes e dos trabalhos.

A alma toma o conselho que dá o profeta Davi nas palavras dirigidas aos que vão por esse caminho: “Se as riquezas abundarem, não apegueís a elas o vosso coração” (Sl 61,11). Essas riquezas significam, ao vosso propósito, os gostos sensíveis e outros bens temporais, e as consolações do Espírito. Convém notar que não são apenas os bens temporais e os deleites do corpo que impedem e contradizem o caminho de Deus, também as consolações e gostos espirituais, se a alma os conserva como proprietária ou os procura, são empecilho à via da cruz de Cristo, seu Esposo. Quem quiser adiantar-se, precisa, portanto, não andar a colher essas flores. Só o homem livre poderá cantar o cântico da liberdade e saberá comunicar aos outros o desejo da luta para se libertar de toda forma do mal.

 

O desprendimento é um vácuo, é certo, mas um vácuo que imediatamente se preenche. O amor egoísta é um circulo concêntrico, como um roda-moinho, para si mesmo girando em torno de si, puxando para baixo, para os seus próprios desejos e instintos mais baixos. O amor de Deus, o ágape é um circulo alocêntrico, também como um roda-moinho, mas puxando para cima abrindo-se para o outro.

Existe uma lenda de um rapazinho que pondo um dedo no buraco de um dique, impediu que as águas corressem sobre a Holanda; assim o amor desordenado por qualquer pessoa, não importa quão insignificante possa ser esse amor, pode impedir que as águas do Espírito Santo inundem a nossa alma.
O desprendimento remove os obstáculos que se opõem à graça e permite que a alma seja inundada pelo amor de Deus.

Tenho Deus, tenho tudo.

É preciso insistir que o desapego é uma obra da graça. Ao tratarmos do desprendimento, temos de ver à luz do sobrenatural, pois não há filosofia humana ou processo de raciocínio que nos possa fazer compreender a que alturas a que a alma é chamada e para as quais tem de estar preparada, quer os abismos de pecado de quem tem de ser purificada e desapegada. O resultado do desprendimento é sermos capazes de amar como Cristo: amar a Deus e ao próximo, com um amor sobrenatural, puro, perfeito e universal.

Antes que possamos aprender a amar o semelhante com o amor de Cristo, temos de olhá-lo como Cristo o olha. É preciso ter este olhar misericordioso de Deus sobre a humanidade, que é o olhar de Cristo.
Consequentemente, temos de olhar o próximo com os olhos de Cristo, e julgar as nossas relações com Ele de acordo com o espírito de Cristo.

Mas, como o desapego é uma preparação para o amor e abarca as afeições e o coração, aquele que consegue um desapego perfeito troca o coração pelo de Cristo, e daí em diante ama sempre com o coração de Cristo e não com o seu próprio.

Vamos a partir do mais belo episódio da vida de Santa Catarina de Sena ver o que é o desprendimento.
Cristo tomou o coração de Santa Catarina para si, e lhe deu o seu a santa. O ato de Ele tirar o coração da Santa representa o processo do desprendimento o de lhe entregar o seu representa o resultado do desprendimento. Depois deste acontecimento, o amor de Santa Catarina aumentou sempre com crescente intensidade, atingir a perfeição e tornou-a capaz de amar os homens, toda a espécie e classe de pessoas, com grande compaixão, cordialidade e fervor. Suas ações, daí em diante, manifestam a grande liberdade do amor. Estava rodeada de discípulos dedicados, exerceu uma influência maravilhosa sobre Príncipes e Papas, e a todos abrangeu com a sua encantadora caridade.
 

Como seria possível tal amor? O coração de Cristo palpitando dentro dela, eis a explicação.
Este episódio de Santa Catarina, trocando o seu coração pelo de Cristo, contém em si tudo o que diz respeito ao desprendimento. Ao mesmo tempo, leva-nos a compreender todos os erros que se podem cometer neste ponto. Penso que vale a pena examiná-los pormenorizadamente, visto que nós também queremos amar com o coração de Cristo. Antes de mais, reparemos que Santa Catarina não fica sem coração. Perde o seu, mas ganha o coração de CRISTO. Acontece precisamente o contrário do que erradamente se costuma pensar: que o desprendimento leva a pôr de parte o coração.

Há, de fato, pessoas que se julgam desapegadas por estarem livres de afeições particulares e parecerem não amar ninguém. São aquelas pessoas que “pelo fato de amarem ninguém, pensam que amam a Deus.”Aprenderam o aspecto negativo do desprendimento. Desembaraçaram-se de afetos desordenados. São espirituais, mas frias. As chamas do amor de Cristo não aquecem os que com elas tratam. Os pecadores e os necessitados vêem nelas pessoas sem coração. “Que sejamos tochas ardentes de amor, “mãos unidas” que velam em oração incessante, totalmente desapegados do mundo!”
 

A segunda coisa a notar é que o coração de Cristo é um coração de carne. Cristo é divino, mas é também humano. Aqueles que ambicionam amar como Ele ama, com o seu coração, devem amar sobrenaturalmente. Mas as circunstâncias de lutarem por perder o coração não deve significar que percam a humanidade e as afeições humanas.

 

O resultado do desprendimento é a capacidade para amar a todos, mas o desapego não nos faz amar menos aqueles que amávamos de modo especial

O coração de Cristo é um coração de carne, e seu amor sublima, purifica e aperfeiçoa o amor humano. Nossa Senhora, que foi sempre perfeitamente desapegada, reparava as necessidades mais humanas dos outros: “Não têm mais vinho!” E o próprio Cristo teve “compaixão da multidão, porque não tinham nada para comer.”

Outro erro que cometemos no campo do desprendimento, pensamos que nos tornar desapegados e amar como Cristo ama significa amar com um amor vago e impessoal, desprovido de simpatia humana, um amor que deixa de ter por objeto cada pessoa em particular e que não se interessa pelas suas necessidades concretas. Perdemo-nos completamente no nevoeiro espiritual que impomos aos nossos sentimentos naturais pelos outros.

O amor cristão, o amor segundo o coração de Cristo é um amor pessoal e humano. Leva-nos a descobrir aquilo que há de bom na pessoa com quem antipatizamos naturalmente, em vez de alimentar a nossa antipatia e fazer-nos cobri-la com um falso amor cristão. O que é importante em Santa Catarina de Sena é que ela não conservou o seu próprio coração. É em perder o nosso coração que reside a essência do desapego. O amor de Santa Catarina só se expandiu depois de haver perdido o coração.

Há pessoas que desejam amar todo mundo, que são sinceras no seu desejo, contudo, não vêem a necessidade de se desprenderem. Cometem o grande erro de pensar que podem conservar os seus próprios corações. Aí envolvem-se com complicações emocionais, não sabem lidar com as pessoas de forma livre e caem no ponto de vista sociológico que se chama “identificação excessiva”, ou no ponto de vista psicoemocional que se chama “apego” ou “paixões”.

Só quando temos o coração de Cristo pode o nosso amor ser universal, sem sentimentalismo; só então podemos amar a todos; só então podemos ser “Tudo para todos”; não identificando-os conosco, mas vendo a identidade deles em Cristo.

A última lição que podemos apreender com Santa Catarina de Sena é que ela se tornou desprendida, não pelo endurecimento do coração, mas pela doação deste a Cristo. Quando lutamos por conseguir o desprendimento temos de nos lembrar continuamente do elemento mais importante: Dar o nosso coração a Cristo. Sem isso, todos os exercícios de desprendimento podem tornar-se instrumentos de endurecimento do nosso coração, em vez de serem meios para o perder.

3-) O desprendimento é necessário – reparemos que os santos todos eram desapegados e livres de coração – eram ao mesmo tempo capazes de um amor sem limites, surge assim a inevitável questão:Como teriam conseguido este desapego?

Não conseguimos entender, compreender, que tal desapego os santos alcançaram fugindo do mundo ou vivendo fortes periodos de solidão – deserto – afastamento.

São Francisco – o santo que notabilizou pelo amor aos Homens e as Criaturas e por um louco amor por Deus – onde gritava respondendo aos que lhe diziam: “olha o louco – aí vai o louco…”, ele gritava -sim, louco, louco de Amor, pelo Amor que não é Amado”, e que influenciou e surpreendeu por seu trabalho social os pobres de Assis – por que desapareceu do mundo e refugiou-se numa gruta.

São Bento: o fundador da vida monástica, a quem justamente atribuímos a transformação dos grupos de bárbaros pagãos em comunidades cristãs, começou por viver vários anos como eremita.

Exercício de desprendimento – para desapegarmos precisa e é necessário a ascese.
Sim, os esforços que podemos fazer para nos desprendermos; esforços que dependem das inclinações e dos problemas de cada um:

Exemplos:
• podemos cortar com as longas conversas telefônicas com as quais nutrimos especiais predileção;
• podemos deixar à vontade de Deus e não às nossas preferências, decidir com quem devemos falar ou passar o tempo;
• podemos ficar mais tempo com aquela pessoa que vivia isolada em   vez de fazermos com os amigos pessoais.

O principal é descobrir quais pessoas – coisas e circunstâncias que impedem o nosso desprendimento, e tomar precauções de acordo com isso.
O trabalho do desprendimento é gradual, mas deve ser priorizado e radicalizado.
Temos que fazer esforços repetidos no sentido de nos desprendermos, à medida que Deus nos for dando luzes para ver os amores egoístas e desordenados de um dia para o outro.

Concluímos:

O resultado do desprendimento é fazer que seja o coração de Cristo que ame em nós.
Este amor traz consigo neste desprender-se muitos benefícios.
Deus ocupa o lugar principal em nossas vidas e amá-lo acima de todas as coisas faz-nos maravilhosamente felizes.
Teremos então outra razão para sermos felizes, pois possuimos o amor de Cristo para o dar aos outros e isto é causa de intensa alegria.

O resultado do desprendimento é a capacidade para amar a todos, mas o desapego não nos faz amar menos aqueles que amávamos de modo especial. O desprendimento não põe limites ao amor, e a caridade é, pela sua própria natureza ilimitada e capaz de enorme expansão.O nosso amor por quem quer que seja nunca se dilui pelo fato de a caridade se estender a todos universalmente.

O coração de Cristo dentro de nós é um fogo ardente que se expande continuamente. Quando temos dentro de nós o coração de Cristo vivemos totalmente desprendidos, estaremos como que imunizados contra o ressentimento ou a infelicidade. Isso não quer dizer que não possa sofrer. O desprendimento impõe: “Que nos alegremos com os que se alegram e choremos com os que choram.

Um homem desprendido condói-se e sofre com todos, da mesma maneira que é livre para se alegrar com todos. O fato do desprendimento nos ajudar a não se preocupar com o sofrimentos pessoais dispõe-nos a sofrer sem egoísmo com os que sofrem. Compartilha do sofrimento de todos, não de uma forma sentimental, mas como Cristo o teria compartilhado. Seu desprendimento em relação a todos e a tudo nos ajuda a uma maravilhosa união com todos.

Finalizamos com os conselhos práticos para o nosso exercício do desprendimento com nosso baluarte São João da Cruz, para darmos passos rápidos ao encontro de Cristo.

Lembremos alguns de seus Conselhos:

“O amor consiste em desprender-se, desapegar-se, por Deus, de tudo que não é Ele”.
“Inclinar-se sempre não ao mais fácil, mas ao mais dificil;
Não ao mais saboroso, mais ao mais insípido;
Não ao mais gostoso, mas ao que não dá gosto;
Não se inclinar ao que é descanso, mais ao mais trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas o que não é consolo;
Não ao mais, mais ao menos;
Não andar buscando o melhor das coisas, mas o pior.” (Ditos de Luz 159)

 

Pe.Emílio Carlos Mancini.