Convém começar sempre pedindo desculpas. Seja lá qual a razão da insatisfação, certamente não pretendia ofender pessoa alguma. O pior é que, neste ambiente tão polarizado, é inevitável não incomodar. Independentemente do assunto. E da opinião.

Nestes dias estranhos, mesmo que inconcluso, já encontra oposição. Não há interesse em ideias, opiniões, e conceitos. Tudo o que importa é a posição de quem fala. E a posição de quem fala, aparentemente, determina o lado.

 

E la nave va. Em nosso caso, sempre a deriva. Ou, pior. Sem que seus passageiros tenham a menor preocupação com o destino da embarcação. Alheios ao obvio, permitem que a embarcação corra o risco do naufrágio

Difícil mesmo é tentar não ter lado. Sobre qualquer assunto, alias. Todo começo de conversa, post na mídia social ou interação humana tem sido por definição, contaminada pela necessidade de escolher um lado. E ficar nele mesmo que o assunto mude. Evoluir a opinião, jamais. Mudar de opinião, então, virou coisa de traidor.

Não se trocam mais ideia. Somente (ainda metaforicamente) chumbo. Insanidade que se materializa diariamente em quantidades infinitas de debates entre surdos. Discussões estéreis sem qualquer proposito e cujo produto é o nada. Nada é mesmo tudo o que este tipo de situação pode gerar.

E la nave va. Em nosso caso, sempre a deriva. Ou, pior. Sem que seus passageiros tenham a menor preocupação com o destino da embarcação. Alheios ao obvio, permitem que a embarcação corra o risco do naufrágio sem prestar atenção no fato de que não existem botes salva-vidas. Para ninguém.

Falamos do passado com a paixão dos fiéis. Discutimos acaloradamente teses jurídicas, chicanas, artifícios e alegorias legais. Distribuímos culpa como ninguém. Ajuda quando dá para culpar os estrangeiros.

A gente só falha quando tem que tratar do futuro. Plantar para colher. Sacrificar hoje para viver melhor amanha. Nisso, não parece haver interesse. Faz tempo. E muito. Talvez seja hora de olhar para frente. E buscar soluções.

Estamos sempre à espera de algo. Nem se sabe mais do que. A gente fala de tudo. De todos. De qualquer coisa. Menos de como vamos fazer para sair deste buraco em que nos metemos. Em cujo fundo continuamos a escavar. Entusiasmadamente, ao que parece.

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)