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Poucas vezes os jovens foram protagonistas da história. Alguns deles chegaram a uma posição de liderança e poder. Houve casos de reis, e até Papas, que governaram muito cedo, entre 12 ou 18 anos. Mas, em geral, os jovens passaram silenciosos pela história. Dar prosseguimento à vocação familiar, constituir família por volta dos 16 anos, lutar em guerras intermináveis, manter as tradições. Estas eram algumas funções determinadas pela sociedade a essa reduzida faixa etária. Apesar da falta de expressividade da maioria, surgiram jovens gênios que se expressaram principalmente nas artes, como música, teatro e literatura, ou nas invenções. Pensadores que emergiam antes dos 20 anos, mas que morriam antes dos 30. 
  

É preciso ampliar discussões sobre como os jovens se compreendem, como interpretam a vida comunitária e como se inserem e como gostariam de ser inseridos.

A verdade é que o mundo mais falou dos jovens e aos jovens do que os deixou falar. Entretanto, chegou a modernidade e uma onda de eventos como as Grandes Guerras, a tensão entre capitalismo e socialismo, o desenvolvimento da ciência e tecnologia e, por consequência, da comunicação global, a liberdade de expressão, a mundialização da cultura, a crítica histórica, a nova compreensão do homem, enfim, tantos elementos que aconteciam simultaneamente, levaram a partir dos anos 1950 a uma “explosão jovem”.

Os jovens se fizeram ouvir, organizaram-se politicamente, criticaram e protestaram/protestam contra as estruturas socioculturais e político-econômicas. “Expandiram” sua voz através das mídias: rádio, cinema, música, televisão, internet, redes sociais.

 

A catequese a partir da vivência do jovem

Por trás disso o capitalismo percebeu uma grande oportunidade: investiu bilhões nas suas ideias, sonhos, rebeldias, canções, moda… O jovem se tornou produto. O padrão de beleza é ser jovem. Não obstante aparecem comportamentos esquizofrênicos onde adultos ou idosos querem agir ou vestir-se como a juventude. Não que seja proibido, mas criticamente criamos uma sociedade insatisfeita, neurótica. Despreza-se a beleza de cada fase da vida, potencialidade e limitações. Por consequência, conjurou-se a corrida pelas academias, cirurgias plásticas, consumismo da moda que um jovem “padrão de beleza” está usando na novela. O outro é objeto de desejo. É a corrida pela fonte da juventude. A indústria da idade. E tudo isso leva ao enfraquecimento das relações humanas.

 

A Catequese de Crisma precisa  partir da experiência pessoal do jovem e ajudá-lo a construir-se em referência a Jesus de Nazaré

Ainda assim os jovens emergem não mais como ouvintes, mas sujeitos. Falam, cantam e gritam. Expressar é preciso. Jovens falando de si e reunindo milhões. Mas tudo isso não aplacou o que é mais importante para essa faixa etária: pertencer. O vazio da agitação atual não tirou o que psicologicamente sempre foi da idade dos jovens: rebelar-se. Somam-se a isso os laços de amizade, pertencimento, que se tornam intensos nesta fase. A igualdade etária torna-se mais forte do que a consanguinidade. Começa a crise familiar, das gerações. Unem-se em grupos ou tribos, encontram seus espaços de pertencimento e rebelam-se para encontrar ou expressar sua identidade. Destaque para as mídias digitais. Habitam a rede e usam-na como instrumento de organização, expressão e relação. Encontraram seu espaço. Não só a dominam como também a manipulam para fazerem-se ouvidos.

Estendendo a reflexão para a Igreja também falamos muito aos jovens e dos jovens. A partir da Conferência Episcopal Latino-americana em Medellín e Puebla a Igreja assumiu duas opções preferenciais: pelos pobres e pelos jovens. Não avançamos muito. Poucos estão à frente das lideranças cristãs, dos conselhos pastorais, das rodas de conversas eclesiais. São lembrados em alguns espaços específicos de Catequese de Crisma, Pastoral da Juventude, ministério de música

 

O texto básico da Campanha da Fraternidade 2013 trouxe muitas informações sobre eles. Descrição importante e ampla. É preciso ampliar discussões de como os jovens se compreendem, como interpretam a vida comunitária, como se inserem e como gostariam de ser inseridos. A Catequese de Crisma precisa ser provocada por isso, partir da experiência pessoal do jovem e ajudá-lo a construir-se em referência a Jesus de Nazaré. Ajudá-lo a revelar-se/rebelar-se trazendo boa novidade ao mundo.

 

Ricardo Diniz de Oliveira
 Membro da comissão Arquidiocesana de Catequese