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Estar como criança recém-nascida na manjedoura é expressão do “esvaziamento”
do Filho de Deus.
Ele entra em comunhão com a humanidade e assume o lugar dos mais pobres

 

 O evangelista Lucas nos narra o nascimento de Jesus situando a história e as condições nas quais Maria deu à luz seu filho. Por três vezes o evangelista, referindo-se ao recém-nascido, repete a expressão “deitado numa manjedoura”. Da primeira vez narrando o nascimento, Lucas informa: “Ela [Maria] deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (2,7). Logo, o autor do terceiro Evangelho narra o anúncio do anjo do Senhor aos pastores: “E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (2,12). Finalmente, Lucas noticia o que os pastores encontraram: “Foram, pois, às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (2,17).

 

Esta repetição poderia passar despercebida, não fosse o ponto que atraiu o olhar e a contemplação de Maria e de José, dos pastores, do próprio evangelista e continua atraindo o olhar de cada um de nós. No presépio, o pequeno bebê é o Filho de Deus, Jesus. Eis uma cena singular do mistério da encarnação: o Filho de Deus que se fez homem é aquele bebê, recém-nascido, que pelos cuidados de sua jovem mãe foi enrolado em faixas e está aquecido no calor do coxo onde se deposita o alimento para o gado.

 

Se Deus decidiu ser gente como a gente, é porque nos ama
e quer estar tão próximo de nós a
ponto de ser como
um de nós.
Este é o mistério
da fé que
chamamos
de “encarnação”

Estar como criança recém-nascida na manjedoura é expressão do “esvaziamento” do Filho de Deus. Ele entra em comunhão com a humanidade e assume o lugar dos mais pobres, que mesmo sem enxovais e berços, sempre encontram os braços da mãe, as primeiras roupinhas e um lugar para serem reclinados.

 

Sabemos que um dos primeiros e mais importantes pedidos do ser humano é o alimento. A criança logo chora e a mãe a aleita. Delineia-se por esse movimento um traço da condição humana, a necessidade de se alimentar, de receber alimento e atenção, de sentir o calor do corpo materno e de saciar a fome. Alimentada, a criança vai desenvolver-se, crescer.

 

Ora, o Filho de Deus submeteu-se a esta lógica da criação. Em sua humanidade ele passou pelos mesmos processos fundamentais de todo bebê: sentiu fome, sentiu frio, sentiu sono. Maria, ao lado de José, o amamentou, o enrolou em faixas, o deitou na manjedoura. O mistério da encarnação que começara no seio de Maria agora continua diante dos olhos dos pais e dos pastores. Aquela criança “deitada numa manjedoura” é “A Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Logo, o coração das pessoas será a nova manjedoura onde o Pão descido do céu será oferecido como alimento, onde a Palavra de Vida vai ressoar, onde o amor há de se comprometer em diaconia.

 

Se Deus decidiu ser gente como a gente, é porque nos ama e quer estar tão próximo de nós a ponto de ser como um de nós. E isso até a morte. Este é o mistério da fé que chamamos de “encarnação”. O Deus humanado provoca a mim, a você para sermos mais humanos ainda. Para os discípulos de Jesus, o modelo de ser humano é Ele mesmo. Jesus de Nazaré é Deus entre nós a nos ensinar como se vive de modo humano para receber a graça inefável do dom da divinização.

 

Feliz e abençoado Natal! Nossos olhares colham a expressão do amor de Deus por nós, pois Deus amou tanto a humanidade que nos enviou o seu Filho amado (Jo, 3,16). Que os caminhos de 2014 sejam oportunidades de acolhermos o Evangelho e de, também nós, nos humanizarmos mais.


+ João Justino de Medeiros Silva
Bispo Auxiliar de Belo Horizonte

 

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