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De pé rezamos: Venha teu Reino

Quando a Igreja recita ou canta a Oração do Senhor, cada Domingo, faz reverberar um antigo anseio, comum à tradição judaica, sobre a chegada no “mundo que há de vir.” Já na Didaché, no capítulo X, que certamente reflete os primeiros traços do que mais tarde seria o Prefácio da Oração Eucarística se pede:  “Venha a graça e passe este mundo.” Assim, a comunidade cristã reunida par celebrar a memória de Jesus, caracteriza-se como um povo que espera o porvir de um mundo diferente, novo, marcado pelo Governo de Deus. Ao mesmo tempo, para este mesmos fiéis, Deus antecipa em seu Filho a chegada deste mundo redimido pelo envio de seu Filho Jesus. Por isso, no final da mesma súplica, na Didaché X, os cristãos bradam: “Maranatha”.

 

A cada Eucaristia celebrada no Dia do Senhor, como sacramento da iniciação cristã, somos confirmados nos passos de Jesus como seus seguidores, impulsionados a viver conforme ele rezava, tendo sua Oração como nossa Lei

Para o exegeta Michel Gourgues a segunda petição, pela vinda do Reinado de Deus, não se refere apenas ao esboço de uma escatologia final, ou seja, da confiança na intervenção última e definitiva de Deus, pondo um fim à história e ao tempo presente. Antes, diz respeito à vinda do Reino como um evento ligado ao trabalho evangelizador de Jesus de Nazaré. É em seu “hoje” que o Reinado de Deus é publicado e tornado súplica.1  Segundo o estudioso, esta prece articulada com a súplica seguinte, “seja feita a vossa vontade”, indica que se trata da realização do Reino em nós, seus fiéis. Também o teólogo Gerhard Lohfink, interpretando a petição pelo Reinado de Deus no Pai-Nosso a partir de Dn 7, afirma: “Nós devemos viver já agora no seio deste novo advento (do Reino!).”2  

Nada obsta que se compreenda, portanto, a prece dominical, em especial na petição pelo Reino de Deus, como uma pérola da escatologia cristã, desde que articulada com a iminência do Messias presente no hoje da Igreja e em tensão evidente com o fim dos tempos. Brilha aqui a parentela com o Qaddish, prece hebraica que está na raiz da Oração de Jesus: “Seja glorificado e santificado o grande Nome, no mundo que Ele criou segundo a sua vontade. Estabeleça o seu reino, faça germinar a redenção, introduza o seu Messias nos vossos caminhos durante os vossos dias e durante a vida de toda a casa de Israel, sem demora, no tempo que se aproxima.”3

Teodoro de Mopsuéstia, no século V, numa bevíssima passagem sobre o Pai Nosso, relaciona a esperança pelo Reinado de Deus à ética da comunidade dos fiéis. Para este padre da Igreja, o Pai Nosso compreende uma perfeita regra moral. Segundo ele, esta súplica indica que “devemos ter pensamentos dignos deste reino, fazer ações que convenham à vida do Céu, fazer pouco caso das coisas da terra, estimá-las tão pouco que nos envergonhemos das coisas da terra.” Conclui dizendo: “A exposição da fé ensina-nos a verdadeira doutrina, e a Oração do Senhor orienta a vida dos batizados.”4

A cada Eucaristia celebrada no Dia do Senhor, como sacramento da iniciação cristã, somos reinseridos nesta lógica do Reinado de Deus. Somos confirmados nos passos de Jesus, como seus seguidores, impulsionados a viver conforme ele rezava, tendo sua Oração como nossa Lei. Neste traço da vida espiritual de Cristo que ele nos dá como herança, a petição pelo Reinado de Deus não é um mero detalhe e mais uma dentre outras suplicas, mas aquela que orienta a existência da Igreja no devir histórico na qual ela se realiza.

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 1 Cf. GOURGES, Michel. Il Padre Nostro. Bose: Edizione Qiqajon, 2006, p. 71.
  2LOHFINK, Gerhard. Il Padre Nostro. Una nuova spiegazione. Brescia: Queriniana, 2009, p. 60.
  3Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p.37, n. 1,1.
  4Teodoro de Mopsuestia. Homilias Catequéticas, 11,11.12.19. In. Antologia Liturgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio.