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Da mimese à anamnese III

Do último texto aludindo à tradição que menciona a participação das mulheres, não somente entre os fiéis que têm os pés lavados, mas como aquelas que também lavam os pés de outros, a partir da tradição – exemplo das viúvas no Novo Testamento e de Santa Clara de Assis – partimos para o rito do lava pés como rito batismal na tradição cristã, especificamente ambrosiana. Sabe-se que Santo Ambrósio incluía o gesto de lavar os pés daqueles que seriam batizados, compreendendo que o batismo explicitava a participação na doação e entrega do Servo Jesus 1:

Subiste da fonte. Que aconteceu em seguida? Escutaste a leitura. O bispo tirou as suas vestes – porque é verdade que os presbíteros também fazem este serviço, é, no entanto, o sumo sacerdote que o começa – e lavou-te os pés… nós não ignoramos que a Igreja romana não tem este costume, apesar de seguirmos em tudo o seu exemplo e o seu rito. Contudo, ela não tem este costume de lavar os pés. Toma, pois, cuidado. Talvez ela o tenha abandonado por causa do grande número. Há alguns que tentam desculpar-se dizendo que não se deve fazer isso durante o mistério do batismo, durante a regeneração… Não digo isso para criticar os outros, mas para justificar o ofício que desempenho. Desejo seguir em tudo a Igreja romana, mas nós também somos dotados de inteligência. Por isso, o que se observa noutros lados por boas razões, também nós o guardamos por boas razões2 .

Que o rito do lava-pés tenha sido inserido em contexto iniciático, por uma tradição tão expressiva como o rito ambrosiano não é de se ignorar. Trata-se de uma participação não substitutiva nesse rito analisado. Os fiéis, segundo Ambrósio, têm os pés lavados ao sair das águas do batismo. A conexão merece estudo, mas de antemão pode se pensar na igualdade de todos os cristãos frente à herança da fé (cf. Gl 3,26-29), igualdade da qual nos aproximamos mais com o novo decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, sob o Pontificado do Papa Francisco.

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  Cf. AMBRÓSIO DE MILÃO. “Os Mistérios, 31-33”. In. Antologia litúrgica. Textos patrísticos e litúrgicos do primeiro milênio. Fátima – Coimbra: Secretariado Nacional de Liturgia – Gráfica de Coimbra, 2003, p. 533.
  AMBRÓSIO DE MILÃO. “Os Sacramentos, 31-33”. In. Antologia litúrgica. Textos patrísticos e litúrgicos do primeiro milênio, p. 522-523.

Errata: no último texto (Da mimese à anamnese II), onde se lê “Pode-se até hipnotizar que as viúvas deviam exercer a capacidade de servir, de doar a vida, de se esvaziarem, ao modo do Senhor” substitua-se por “Pode-se até hipotetizar que as viúvas deviam exercer a capacidade de servir, de doar a vida, de se esvaziarem, ao modo do Senhor”.